Coluna do Rafael Greca: Curitiba vira sapolândia punk; fada madrinha de Fruet cai no buraco da Lava Jato

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Em sua coluna desta quarta-feira, Rafael Greca comenta os problemas e desmandos da administração pública de Curitiba, que, segundo ele, está se tornando uma “sapolândia punk”. Greca cita um banhado que fica além do bairro da Caximba, onde o lixo e o esgoto se misturam. Ele fala também dos problemas do transporte público que teria regredido desde os anos 90, fazendo os passageiros sofrerem com a superlotação e a desintegração. Greca ainda cogita a utilização do táxi como modal de transporte público, um “Ubertiba”. Leia, ouça, comente e compartilhe.

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Rafael Greca*

Visitei uma Curitiba sobre palafitas que Fruet, ao tentar enganar a torcida, chama de novo “Parque do Bugio”. Nada mais do que um segmento, não urbanizado, do Parque do Iguaçu dos mapas dos prefeitos Jaime Lerner e Saul Raiz.

Descubro que esta parte da cidade precisa mais do que um prefeito. Precisa de um Moisés que salve o povo das águas e do lamaçal da omissão e da corrupção. Fica além do Campo de Santana, pra lá do Bairro dos Cruz, ao sudoeste da Caximba, onde o rio Barigui desagua no rio Iguaçu.

O aterro criminoso com lixo e resíduos de construção civil. Há algo de podre no ar. Nos aguapés, que fedem a esgoto, o chorume mistura-se às águas. Uma sapolândia punk, podem crer, caros leitores.

Fruet é um sapo que agora não vira mais príncipe. Condenado à mentira publicitária, à propaganda enganosa, agora que sua “fada Madrinha de 2012”, a senadora Gleisi caiu no buraco enlamaçado do processo Lava Jato.

O prefeito Fruet mudou pra pior o transporte público de Curitiba. E “fez” o curitibano perder o transporte que o mundo chegou a tomar por modelo. Sem justificativa, Fruet mexeu no sistema que funcionava muito bem há mais de 20 anos.

Eis os 12 pecados de Fruet: 1) Cortou linhas alimentadoras e 2) encurtou trajetos. 3) Desintegrou financeiramente a rede metropolitana e 4) diminuiu o número de ônibus. 5) Usou o deslocamento negativo como solução e 6) aumentou o tempo de deslocamento. 7) Subiu o preço da passagem em 8) ônibus sucateados e 9) superlotados.

E para piorar o stress, deixou o usuário na contramão, lançando as pessoas em um: 10) trânsito congestionado; 11) asfalto de péssima qualidade; e 12) a falta de segurança pública — média de oito curitibanos por dia são assaltados em ônibus, estações-tubo e terminais.Jovens descartados, noiados, chegam a pernoitar no chão dos ônibus, como este triste flagrante do noiado caído no interior do ônibus Pinhais-Campo Comprido.

Não bastasse tudo isso, Fruet ainda tentou e tenta tirar proveito político da situação que ele mesmo criou, gastando dinheiro público em propaganda enganosa, onde afirma que “a integração ainda existe”.

Fruet mentiu no desmentido: a desintegração é fato. Fuet mente em out door oficial clear channel (foto).

desintegra

Recapitulando. Em fevereiro de 2015 a Rede Integrada de Transporte Metropolitano – que eu implantei em 1995 – foi desintegrada.

Decisão do prefeito Gustavo Fruet, que garantiu, na época, que a medida ajudaria a reduzir o preço da tarifa. Enganou a todos e a todas. Fez de todos, tolos; e de todas, tolas.

A desintegração completou um ano, e só prejudicou e encareceu a vida de 500 mil usuários. A insatisfação é crescente; a confusão, mais ainda. A insatisfação provocou até um quebra-quebra, como no Terminal Angélica, em Araucária, no dia 13 de abril do ano passado.

A confusão é diária. E como muitos não entenderam a “mudança” de trajetos e tarifas, Fruet agora, espertamente, aposta na confusão, e tenta tirar partido, lançando uma campanha publicitária, paga com dinheiro público, para negar o inegável, a desintegração do sistema.

Fruet mentiu ao tentar desmentir. Deve estar sobrando dinheiro na prefeitura. Seriam as sobras do Petrolão? A campanha deve ter custado, segundo estimativas do mercado publicitário curitibano, algumas dezenas de milhares de reais.

Se já foi insensato desintegrar o sistema, imagine a insensatez de quem ainda acredita que campanha publicitária tem poder de consertar erro estratégico de prefeito.

Fruet mexeu em um sistema que deu certo, que funcionava bem, que precisava apenas de ampliação e da incorporação de novos modais, como o metrô. Ao contrário do que a prefeito afirma, gastando nosso recursos, a desintegração é um fato.

Percorri com minha assessoria percorreu vários trechos e entrevistamos vários usuários. Constatamos os percalços. Encontramos vários usuários que desafiaram o prefeito a fazer vários trajetos pagando uma só passagem, como ele garante.

Além do pagamento duplo, os usuários reclamam bastante do “deslocamento negativo” — termo técnico para falar da volta fora do sentido desejado —, coisa que o atual desprefeito introduziu no modelar sistema curitibano.

São muitos os trechos em deslocamento negativo, fator que inchou os Ligeirinhos, como os da linha Centenário — que de lotados viraram superlotados.

A superlotação piorou, segundo os primeiros levantamentos, cinco Ligeirinhos, que tiveram suas linhas encurtadas, sem justificativa técnica: 1) Fazendinha/Tamandaré; 2) Colombo/CIC; 3) Barreirinha/São José; 4) Curitiba/Araucária;  e 5) Campo Largo/Curitiba.

O trajeto do Ligeirinho Fazendinha/Tamandaré, por exemplo, foi encurtado pela metade. Antes ia até o Terminal Cauiá, agora só vai até o Centro Cívico, com parada final na Praça 19 de Dezembro, em frente ao Shopping Mueller. A parada no Terminal Barreirinha foi cortada.

Na maior cara de pau, o prefeito Fruet disse ter criado uma nova linha na linha que encurtou: a Centro Cívico/Tamandaré.

Tem nome pra isso? Tem, não sabe como fazer. Por isso, digo e repito: Fruet, se você não sabe como fazer, deixa que eu faço.

Haja confusão, atropelo e perda de tempo. Quantas linhas alimentadoras foram cortadas na “integração publicitária” do prefs? Quantas?

Não deixa de causar espanto ver a soma desta mentira a tantas outras.

A mentira nos governará até quando? Mentiram e mentem na reforma da UPA da Fazendinha, fechada para “reequilibrar” o sistema. Folgo em saber que Fruet planeja reabri-la dia 28. Afinal, quando a construí e inaugurei joguei a chave fora na frente do povo. Disse: “-Esta Unidade de Saúde 24 Horas não fecha nunca mais!”

Mentiram e mentem na Guarda Municipal, subaproveitada, sucateada, porque o prefeito, um advogado, não entendeu que a cidade também é esfera do Estado.

Mentiram e mentem nos preços das obras, abusivos, inaceitáveis, preços muito caros de obras que não conseguem terminar. Mentiram e mentem nos alagamentos, que não conseguiram resolver.

Mentiram e mentem no asfalto sem qualidade. Mentiram e mentem nos 25 berçários de creches, que fecharam sem o menor pudor ou preocupação social.

Mentiram e mentem no corte das três cerejeiras. Mentiram e mentem quando tentam desmentir a desintegração do transporte público.

Me diz uma pessoa que vai daqui até Araucária, ou vice-versa, pagando uma só passagem? Não existe. Onde estão os alimentadores que saiam do Bairro Alto, passando por Colombo, chegando ao terminal do Santa Cândida pela Estrada Velha? Resposta simples: acabaram. Quantas pessoas ficaram sem linhas alimentadoras que usavam? Quantas rotinas foram alteradas desnecessariamente? Que sadismo é esse?

São perguntas duras que fazem o prefeito Fruet fugir ou sumir ou chamar a irmã da tesouraria, o lua-preta do IPTU, a desaparecida do Bairro Alto, o marqueteiro encarcerado por Moro para responder.

E a desorganização é tão medonha que até na campanha publicitária para negar a inegável desintegração, a própria prefeitura admitiu a desintegração, ao afirmar: “o usuário que DESEMBARCA em uma estação tubo ou terminal de integração em Curitiba não paga uma segunda passagem”.

De fato, não paga para DESEMBARCAR porque pagou para EMBARCAR. Pagará se precisar embarcar de novo. Logo não usufrui de integração alguma.

Na propaganda enganosa, a prefeitura assumiu que desembolsa R$ 7,5 milhões para garantir a integração que acabou.

Cabe investigação. Vamos investigar. Temos coragem para investigar e, esperamos em breve, ter legitimidade para fazer.

Mais abandono na Sapolândia punk de Fruet

Na linha Pinhais-Campo Comprido um jovem curitibano descartado, abandonado pela omissão do serviço social da Prefeitura, jaz desacordado no chão do busão. Cena de uma Curitiba que temos, mas não merecemos. Onde está nossa humanidade? Para onde varreram o dever de compaixão com nossos semelhantes?

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Na rua Anibal Goulart Maia Filho, no Higienópolis/Bairro Alto anuncia-se um buraco maior do que o que tragou a senadora Gleisi Hofmann – a fada madrinha de Fruet – e o senador Lindenbergh Faria – aquele que de cara pintada passou a ficha suja junto com Collor. Cena de uma cidade onde a conservação da malha viária não existe.

Ubertiba, por que não?

Recebi a visita dos amigos taxistas Abimael Mardegan, do sindicato dos taxistas do Estado do Paraná, e Nilson Silva, Rogério Felix e Jonaethe Ramos, da União dos Taxistas de Curitiba. Criei um grupo pró Ubertiba que será competitivo a ponto de vencer o Uber norte americano. Confio na livre concorrência. E sou a favor da inovação, mas a inovação que sirva a gente de Curitiba. Meu primeiro compromisso sempre será com os curitibanos.

taxis

Penso que o táxi deve ser valorizado como transporte público. Acredito que é possível introduzir o táxi como modal do transporte público, em um novo uso onde todos saiam ganhando. Sabemos: fazer o que é necessário é a verdadeira inovação.

*Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba, é engenheiro. Escreve às quartas-feiras no Blog do Esmael sobre “Inteligência Urbana”.

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