Dino puxa Motta para explicar viagem de Mário Frias

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu 48 horas para a Câmara dos Deputados explicar a viagem do deputado federal Mário Frias (PL-SP) ao Bahrein e aos Estados Unidos, nesta quarta-feira (20), enquanto o parlamentar ainda não foi intimado em uma ação sobre emendas ligadas ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro (PL).

A cobrança muda o centro político do caso. Dino não mira apenas Frias. O ministro agora cobra da Câmara, comandada por Hugo Motta (Republicanos-PB), informações sobre a situação funcional do deputado, o período autorizado da viagem, eventual custo público, pagamentos e natureza da missão internacional.

Motta virou personagem institucional da crise porque é a Mesa da Câmara que precisa dizer se houve missão oficial, se houve autorização e se a agenda fora do país foi compatível com o mandato parlamentar.

Oficiais de Justiça tentam há mais de um mês intimar Frias para prestar esclarecimentos sobre supostas irregularidades na destinação de emendas parlamentares a empresas da produtora artística responsável por Dark Horse. A apuração tramita no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 854, processo usado pelo STF para tratar da transparência das emendas.

A representação foi apresentada pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP). Ela acusa Frias de ter destinado ao menos R$ 2 milhões à organização não governamental Academia Nacional de Cultura (ANC), presidida por Karina Ferreira da Gama, que também aparece ligada a entidades e empresas relacionadas ao projeto audiovisual sobre Bolsonaro.

Há investigação, pedido de esclarecimentos e cobrança formal do STF, mas não há decisão judicial afirmando que Frias cometeu irregularidade. Acusação não é condenação. O que pesa politicamente é a sequência: emenda, filme, tentativa frustrada de intimação e viagem internacional sem explicação pública suficiente.

A Câmara informou à imprensa que Frias apresentou pedidos de missão internacional sem custos para a Casa. Um deles seria para agenda no Bahrein, de 12 a 18 de maio, e outro para Dallas, nos Estados Unidos, entre 19 e 22 de maio. Os pedidos não haviam sido autorizados oficialmente.

A diferença é relevante. Uma viagem “sem custos” não elimina a pergunta sobre autorização funcional. Também não resolve a dúvida sobre a localização do deputado em momento no qual a Justiça tentava notificá-lo. O ponto de Dino é saber se a ausência tinha respaldo formal ou se a Câmara apenas foi informada depois.

Frias disse que está nos Estados Unidos, que voltará ao Brasil e que está pronto para prestar contas. A declaração protege o deputado no discurso público, mas não substitui a resposta formal que Dino cobrou da Câmara.

O caso também recoloca Dark Horse no centro do desgaste bolsonarista. O filme sobre Bolsonaro já havia sido ligado a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em reportagens sobre financiamento privado e em apurações sobre emendas. O Blog do Esmael vem tratando o episódio como BolsoMaster porque a crise mistura banco, cinema político, pré-campanha e dinheiro público.

Para Motta, a cobrança chega em área sensível. A Câmara vive sob pressão permanente por emendas, controle orçamentário e blindagem parlamentar. Se a resposta for burocrática demais, o presidente da Casa pode ser acusado de proteger um deputado do PL. Se for objetiva demais, abre uma frente de desgaste dentro da direita.

Para o Paraná, o caso interessa porque a direita estadual aposta parte de seu discurso de 2026 na cola com o bolsonarismo nacional. Quanto mais o filme de Bolsonaro vira caso de emenda, viagem e STF, mais o palanque de Flávio Bolsonaro fica caro para aliados que pretendem vender moralidade pública em campanha.

Dino fez uma jogada simples e dura: tirou a viagem de Mário Frias do terreno da versão pessoal e colocou Hugo Motta na obrigação de responder como presidente da Câmara. A crise do Dark Horse deixou de ser apenas um roteiro de campanha bolsonarista e entrou no protocolo oficial do poder.

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