A XXVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, no começo desta tarde (20), já havia colocado Flávio Bolsonaro (PL-RJ) diante dos prefeitos, com aplausos, vaias e gritos de “Vorcaro” na terça-feira (19), e também já havia dado palco a Ronaldo Caiado (PSD-GO), que usou a sabatina da manhã para prometer novo pacto federativo e defender respeito às urnas. Romeu Zema (Novo-MG) ainda estava marcado para falar às 15h, segundo a programação oficial da Confederação Nacional de Municípios (CNM).
A Marcha ocorre de segunda-feira (18) a quinta-feira (21), no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), em Brasília. A CNM apresenta o evento como o maior encontro municipalista do país, com debates sobre reforma tributária, educação, previdência municipal, emergência climática, assistência social, saneamento, saúde, obras, transferências e emendas.
O ponto político é outro. Prefeito não avalia presidenciável por frase de auditório. Prefeito mede caixa, obra, convênio, emenda, posto de saúde, transporte escolar, creche, asfalto e capacidade de vencer eleição sem contaminar o palanque local.
Foi aí que o caso Banco Master entrou no salão antes de Flávio Bolsonaro terminar de falar. O senador fluminense foi ovacionado por apoiadores, mas ouviu gritos de “Vorcaro” e “rachadinha” durante sua participação na terça-feira (19). O episódio ocorreu horas depois de o próprio Flávio Bolsonaro confirmar encontro com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
Flávio Bolsonaro admitiu ter se reunido com Vorcaro depois da prisão e soltura do banqueiro com tornozeleira eletrônica. O senador disse que a relação envolvia financiamento privado para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, e negou irregularidade.
O Blog do Esmael repercutiu mensagens com pedido de R$ 61 milhões a Vorcaro para financiar o filme e a Polícia Federal estimou fraude de cerca de R$ 12 bilhões ligada ao caso Banco Master. Flávio Bolsonaro nega ter oferecido vantagem ilegal, intermediado negócios com o governo ou recebido dinheiro pessoalmente.
Caiado entrou na Marcha nesta quarta-feira (20) com outro cálculo. O pré-candidato afirmou ser um homem que “respeita as urnas”. O ex-governador de Goiás foi sabatinado no formato de perguntas definido pela CNM, diferentemente de Flávio Bolsonaro, e prometeu um “novo pacto federativo”.
A CNM também publicou, nesta quarta-feira (20), que Caiado defendeu aumento do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e novo pacto federativo. Esse é o tipo de fala que prefeito anota. Não resolve campanha nacional, mas conversa diretamente com a tesouraria das cidades.
Zema entra na vitrine às 15h, com a direita ainda rachada pelo desgaste de Flávio Bolsonaro. O ex-governador mineiro fala para prefeitos que querem previsibilidade, não apenas guerra de rede social. A disputa entre Zema, Caiado e Flávio Bolsonaro é também uma disputa pelo mesmo eleitor conservador e pelo mesmo prefeito que precisa decidir onde amarrar seu palanque em 2026.
A programação também mudou em relação à fotografia inicial do evento. A página principal da Marcha ainda exibe Aldo Rebelo como confirmado, mas a programação nominal da quinta-feira (21) traz Augusto Cury às 9h e Renan Santos às 10h30. A presença de Aldo foi cancelada depois que o Democracia Cristã anunciou Joaquim Barbosa como nome para a disputa presidencial.
Lula aparece no site oficial da Marcha como convidado, não como confirmado entre os sabatinados. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) informou não haver previsão de participação do presidente e que a CNM não havia recebido resposta ao convite.
O Paraná olha para essa cena com interesse direto. A Associação dos Municípios do Paraná (AMP) reforçou a participação de prefeitos e prefeitas do Estado, instalou estande no evento e levou Marcel Micheletto (PL), prefeito de Assis Chateaubriand e presidente da entidade, para a agenda municipalista em Brasília.
Na abertura da Marcha, Micheletto apresentou, ao lado da CNM e de associações estaduais, reivindicações dos 5,5 mil municípios brasileiros ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Para prefeitos paranaenses, a pergunta concreta não é quem fala mais alto em Brasília. É quem consegue entregar recurso, proteger receita municipal, destravar obras e não virar fardo eleitoral nas cidades médias, onde a campanha passa por vereadores, deputados, igrejas, cooperativas, associações comerciais e máquinas locais.
Essa conta atinge Sergio Moro (PL), pré-candidato ao governo do Paraná, e Deltan Dallagnol (Novo), pré-candidato ao Senado, porque a aliança PL-Novo no Estado foi montada sob a sombra do bolsonarismo nacional. A filiação de Moro ao PL já havia provocado resistência dentro da legenda no Paraná, segundo anotação do Blog do Esmael, e Flávio Bolsonaro anunciou apoio a Deltan e Filipe Barros (PL) ao Senado.
Também atinge Ratinho Junior (PSD), que observa Caiado ocupar a vitrine do PSD na Marcha, e Gleisi Hoffmann (PT), ministra das Relações Institucionais, cuja tarefa política é manter prefeitos próximos do governo Lula num ambiente em que emenda, obra e repasse valem mais do que slogan nacional.
A Marcha dos Prefeitos deixou de ser apenas agenda municipalista quando os presidenciáveis subiram ao palco. Flávio Bolsonaro já sentiu o peso do Master diante dos gestores; Caiado já tentou vender pacto federativo; Zema ainda teria sua vez nesta quarta-feira (20); Lula ficou como convidado sem presença confirmada. Para o Paraná, a lição é seca: prefeito quer palanque que entregue, não candidatura que obrigue explicação.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




