O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) aparece em contrato obtido pelo Intercept Brasil como produtor-executivo de “Dark Horse”, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, com atribuições ligadas à gestão financeira do projeto, em uma revelação publicada nesta sexta-feira (15) que amplia o caso BolsoMaster do pedido de dinheiro feito por Flávio Bolsonaro para o núcleo operacional da família.
A reportagem de Laís Martins, Eduardo Goulart, Leandro Becker e Paulo Motoryn afirma que o documento foi datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024. O contrato colocaria Eduardo e Mario Frias (PL-SP) à frente da produção-executiva ao lado da GoUp Entertainment, empresa sediada nos Estados Unidos.
O ponto político é direto: Eduardo havia dito no Instagram, na quinta-feira (14), que apenas cedeu direitos de imagem e que não exerceu cargo de gestão no filme. O contrato revelado pelo Intercept aponta outra direção, ao mencionar responsabilidades ligadas ao financiamento, à documentação para investidores e à busca de recursos para a produção.
O caso BolsoMaster, que começou com áudios e mensagens sobre a negociação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, agora alcança o irmão Eduardo no ponto mais sensível: quem decidia, quem buscava dinheiro e quem poderia se beneficiar do orçamento milionário do filme.
Segundo o Intercept, Vorcaro teria se comprometido a repassar 24 milhões de dólares, cerca de R$ 134 milhões na época, para financiar “Dark Horse”. A reportagem afirma que ao menos 10,6 milhões de dólares, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações.
Não há condenação judicial nesse trecho da história. Há documentos, mensagens, valores apontados pela reportagem e versões públicas em conflito. É nesse intervalo que mora o dano político para o bolsonarismo, porque a narrativa de filme militante virou discussão sobre fundo, contrato, remessa internacional, investidores e possível benefício privado.
A defesa de Mario Frias disse ao Intercept que Eduardo Bolsonaro “não é e nunca foi produtor-executivo” de “Dark Horse” e que não recebeu quantia do fundo ligado ao filme. O Intercept informou que procurou Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro e Daniel Vorcaro, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem.
A nova revelação também cita uma troca de mensagens de 21 de março de 2025 entre Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, e Daniel Vorcaro. Miranda teria encaminhado ao banqueiro uma mensagem atribuída a Eduardo sobre a melhor forma de enviar recursos aos Estados Unidos, com referência a remessas feitas “aos poucos” e a um prazo estimado de seis meses.
Miranda afirmou ao Intercept que não participou da produção, da gestão financeira nem da estratégia de lançamento do filme. Disse que sua atuação se limitou a intermediar contato entre um pretenso investidor e interessados no projeto. A resposta não elimina o fato central da reportagem: os documentos atribuem a Eduardo papel além da cessão de imagem.
Outro ponto sensível é o caminho do dinheiro. O Intercept afirma que parte dos valores negociados por Flávio Bolsonaro junto a Vorcaro foi transferida para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas e controlado por aliados de Eduardo, entre eles Paulo Calixto, advogado ligado ao processo imigratório do ex-deputado nos Estados Unidos. A Agência Pública já havia identificado Calixto como assessor de Eduardo em temas de imigração nos EUA.
A reportagem também afirma que o plano de negócios previa um orçamento entre 23 milhões e 26 milhões de dólares para o filme, oferta de 40 cotas de 500 mil dólares e pacotes de investimento com promessa de retorno do capital, lucro de 20% e até “oportunidade de imigração” para investidores. Esse detalhe desloca o caso do campo cultural para o mercado de dinheiro, vistos e influência política.
A situação de Eduardo Bolsonaro já era frágil antes da nova reportagem. A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados cassou seu mandato em 18 de dezembro de 2025 por excesso de faltas, segundo o Blog do Esmael, e o ex-deputado também responde no Supremo Tribunal Federal (STF) por acusações ligadas à tentativa de interferir em processos envolvendo Jair Bolsonaro.
Para o Blog do Esmael, a consequência política está na ampliação do raio do escândalo. Flávio Bolsonaro aparece na negociação com Vorcaro, Mario Frias surge no entorno da produção e Eduardo Bolsonaro passa a ser associado, por contrato e mensagens, à engrenagem financeira do filme. O clã Bolsonaro terá de explicar se “Dark Horse” era apenas propaganda política, projeto comercial ou peça de uma operação maior de captação internacional.
A direita tentou vender o filme como narrativa heroica sobre Jair Bolsonaro. A nova reportagem do Intercept empurra a história para outro roteiro: contrato, fundo no Texas, dinheiro do Master, promessa a investidor e contradição pública de Eduardo Bolsonaro.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




