O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhou uma crise consular em Gaza depois que Israel manteve sob custódia o brasileiro Thiago Ávila, levado para interrogatório após a interceptação da flotilha Global Sumud no Mediterrâneo. A atualização é mais grave: a Associated Press informou no sábado (2) que Ávila e o hispano-palestino Saif Abukeshek iniciaram greve de fome.
O caso deixou de ser apenas nota diplomática.
Há um brasileiro em poder de Israel, acusações de agressão durante a custódia e pressão direta sobre o Ministério das Relações Exteriores.
A AP informou que os dois ativistas foram detidos para interrogatório em Israel, enquanto dezenas de outros integrantes da flotilha foram levados pela guarda costeira grega para Creta. O ministro espanhol das Relações Exteriores, José Manuel Albares, chamou a detenção de ilegal por ter ocorrido fora da jurisdição israelense.
A entidade jurídica Adalah disse ter visitado Ávila e Abukeshek em uma unidade de detenção em Ashkelon. Segundo a AP, os dois relataram greve de fome e denunciaram agressões físicas. Israel afirmou que os ativistas receberam visita consular.
A Al Jazeera informou que os dois devem passar por audiência no domingo (3), para discutir a prorrogação da detenção. A emissora também registrou que Israel atribui aos ativistas supostas ligações com o Hamas, mas o chanceler espanhol disse que o governo israelense não apresentou provas contra Abukeshek.
O Brasil entrou na cobrança de forma mais ampla.
Segundo a Agência Brasil, Brasil, Turquia, Bangladesh, Colômbia, Jordânia, Líbia, Malásia, Maldivas, Mauritânia, Paquistão, África do Sul e Espanha condenaram o ataque israelense à flotilha e pediram a libertação imediata dos ativistas. A declaração conjunta classificou a detenção em águas internacionais como violação do direito internacional.
Quatro brasileiros integravam a missão humanitária, segundo a Agência Brasil. A diferença, agora, é que Thiago Ávila virou o nome preso no centro do confronto diplomático.
A flotilha partiu de Barcelona em abril para tentar romper o bloqueio naval imposto por Israel a Gaza e levar ajuda humanitária. A Reuters registrou, ainda em 12 de abril, que 39 barcos estavam previstos na saída inicial, com outras embarcações esperadas ao longo da rota.
Esse é o ponto político para Lula.
O governo brasileiro já condenava a ofensiva israelense em Gaza. Agora precisa provar, no caso concreto, que sua diplomacia protege cidadão brasileiro fora do país.
A pressão sobre o Itamaraty passa por acesso consular, informação à família, cobrança pública por integridade física e exigência de libertação. Se Israel mantiver Ávila preso, a crise deixa de ser debate internacional e vira cobrança doméstica contra Brasília.
Israel tenta enquadrar a flotilha como operação de segurança. Brasil, Espanha e outros governos tratam o episódio como violação em águas internacionais. Entre uma versão e outra, Lula tem um brasileiro detido, uma guerra em Gaza e uma pergunta simples: o Brasil vai limitar a reação à nota oficial?
Gaza entrou no colo de Lula com passaporte brasileiro. O Planalto será cobrado pela defesa de Thiago Ávila, pela resposta a Israel e pelo peso real que sua política externa terá diante de uma prisão sob holofote internacional.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




