O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entrou no centro da crise do Banco Master depois da divulgação de áudios e mensagens sobre pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Em Brasília, fontes do Blog do Esmael dizem que o vazamento pode ter nascido na disputa do banqueiro por uma delação premiada, mas essa hipótese não tira Flávio Bolsonaro do caso.
A reportagem do Intercept mostrou tratativas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para viabilizar a produção do filme, com cobranças de recursos e interlocução direta entre o senador e o dono do Banco Master. A publicação afirma que as mensagens foram verificadas com base em dados bancários, telefônicos, inquéritos, registros do Congresso e redes sociais.
Flávio Bolsonaro nega irregularidade. A versão do senador é que se tratava de patrocínio privado para um projeto privado, sem dinheiro público e sem contrapartida. O problema político é que a revelação derrubou a negativa anterior de vínculo com Vorcaro, registrada por veículos internacionais como Reuters e Associated Press.
É nesse ponto que o bastidor começa a pesar. Segundo fontes do Blog ouvidas em Brasília, entre analistas, advogados e estrategistas políticos, uma hipótese circula com força: o material pode ter sido usado pelo entorno de Vorcaro para mostrar poder de dano no momento em que sua colaboração premiada enfrenta barreiras no Supremo Tribunal Federal (STF).
A tese não está comprovada. Não há confirmação pública de que a defesa de Vorcaro tenha vazado os áudios. Também não há prova de participação direta de advogados na entrega do material à imprensa. O que há é uma coincidência política relevante: a divulgação ocorre enquanto o dono do Master tenta convencer autoridades de que tem algo relevante a oferecer.
Na quinta-feira (7), o ministro André Mendonça, relator de processos ligados ao caso Master no STF, afirmou por nota que ainda não havia acessado a proposta de delação de Vorcaro entregue à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR). O ministro disse que uma colaboração precisa ser “séria e efetiva” para produzir efeitos.
Em Brasília, essa frase foi lida como aviso. Delação premiada não é apenas uma lista de nomes jogada sobre a mesa. Para avançar, precisa trazer fatos verificáveis, documentos, caminhos de dinheiro, personagens identificados e utilidade real para a investigação.
Por isso, o vazamento dos áudios abre duas frentes. Para Vorcaro, pode funcionar como demonstração de que ele tem material capaz de atingir figuras de peso. Para Flávio Bolsonaro, produz uma pergunta que não depende da origem do vazamento: por que o senador procurou dinheiro de um banqueiro enrolado no caso Master para bancar um filme político sobre o pai?
A diferença é decisiva. Investigar quem vazou pode interessar ao STF, à PF, à PGR e ao Congresso. Mas a autoria do vazamento não apaga o conteúdo revelado, nem resolve a contradição pública de Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Vorcaro.
O PL tenta deslocar a crise para a origem do material. Essa linha ajuda a bolha a tratar Flávio Bolsonaro como alvo de uma operação política. O risco, para o partido, é que a pergunta sobre o vazamento vire cortina de fumaça para a pergunta principal: havia apenas patrocínio cultural ou havia uma relação política mais profunda entre o senador e o dono do Master?
A 6ª fase da Operação Compliance Zero elevou a temperatura do caso. A PF cumpriu nesta quinta-feira (14) mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão em investigação sobre intimidação, coerção, obtenção de informações sigilosas e invasões a dispositivos informáticos. Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, foi preso.
Esse contexto torna o vazamento mais explosivo. O caso Master já não trata apenas de banco, prejuízo e fiscalização financeira. Ele passou a envolver disputa por informação, pressão sobre investigações e tentativa de sobrevivência jurídica de personagens que conhecem Brasília, mercado e política.
A hipótese do fogo amigo, portanto, precisa ser lida com cuidado. Ela pode explicar a rota do vazamento, mas não transforma Flávio Bolsonaro em vítima automática de Vorcaro. Se o material saiu do entorno do banqueiro, isso mostra que Vorcaro tenta negociar sua própria saída. Se saiu de adversários, mostra que Flávio Bolsonaro está vulnerável por causa de uma relação que ele mesmo admitiu.
A delação de Vorcaro pode explicar o caminho do vazamento. Não explica, porém, a conversa de Flávio Bolsonaro com o dono do Banco Master. O pré-candidato está na defensiva, e é ele quem deve resposta sobre a natureza da negociação, o papel do filme na estratégia política da família e o motivo de a relação com Vorcaro só ganhar clareza depois da publicação do material.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




