O Globo colocou nesta sexta-feira (12) o deputado federal Filipe Barros (PL-PR) no centro da crise do Banco Master, ao publicar que o bolsonarista atuou no Congresso em frentes que poderiam beneficiar Daniel Vorcaro; o caso atinge o palanque montado por Flávio Bolsonaro em Curitiba e cobra explicação de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e da direita paranaense.
A reportagem de Johanns Eller, na coluna de Malu Gaspar, afirma que Barros usou o mandato e a presidência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara para pautar medidas ligadas ao Banco Master, ao Banco Central (BC), à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a rivais de Vorcaro no mercado financeiro. O deputado nega irregularidade e diz que nunca recebeu dinheiro do banqueiro.
O dado documental mais duro está na Câmara. O Projeto de Lei 4395/2024, de autoria de Filipe Barros, foi apresentado em 14 de novembro de 2024 para elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para até R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ. A proposição foi retirada pelo autor em 3 de fevereiro de 2026.
O Globo associa esse movimento à chamada “emenda Master”, atribuída a uma tentativa anterior do senador Ciro Nogueira (PP-PI) no Senado. O ponto político é simples: o Master vendia produtos financeiros com retornos elevados e dependia da confiança de investidores protegidos pelo FGC; aumentar essa proteção mudaria o risco percebido por quem aplicava dinheiro no banco.
Barros assumiu em março de 2025 a presidência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional. O colegiado é formalmente voltado à política externa, soberania e defesa nacional.
É nesse detalhe institucional que a história cresce. Segundo O Globo, a comissão presidida por Barros chamou autoridades como Gabriel Galípolo, presidente do BC, e João Pedro Nascimento, então presidente da CVM, para discutir temas financeiros que, em tese, passavam longe da rotina de uma comissão de relações exteriores.
O deputado sustenta outra versão. À coluna, disse que se interessou por regulação do mercado financeiro, defendeu que soberania também é econômica e negou ter atuado a serviço de Vorcaro. A negativa precisa constar porque não há, até aqui, decisão judicial atribuindo crime a Barros nesse episódio. O fato confirmado é a existência do projeto, dos requerimentos e da movimentação parlamentar.
A crise também alcança o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Marinho pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) investigação sobre o vazamento dos áudios entre Flávio e Vorcaro e afirmou que a liberdade de imprensa não elimina o dever estatal de apurar origem de material sigiloso.
A cobrança de Marinho tem lógica jurídica, mas carrega uma trava política. Investigar vazamento não apaga o conteúdo revelado. O Intercept Brasil publicou em maio conversas que apontam relação direta entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para viabilizar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.
O problema para a direita paranaense é que Filipe Barros não estava distante desse enredo. Em 29 de maio, ele subiu no palanque de Flávio Bolsonaro em Curitiba ao lado de Sergio Moro (PL) e Deltan Dallagnol (Novo), num ato que o Blog do Esmael registrou como teste de rua do bolsonarismo no Paraná.
Naquele evento, a direita ensaiou um “palanque do xingamento” contra Lula (PT), o Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann (PT), Requião Filho (PDT) e a esquerda paranaense. O Blog registrou que Flávio Bolsonaro, Moro e aliados apostaram no ataque verbal como cola política para 2026, com pouco conteúdo programático e muito ruído eleitoral.
Em paralelo, Barros levou a disputa da direita paranaense para o terreno mais sensível da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Em entrevista repercutida pela imprensa, o bolsonarista disse que sua vida era “um livro aberto” e chamou Alexandre Curi (Republicanos) de “diário secreto”, tentando colar no presidente da Casa a memória do escândalo dos Diários Secretos, embora procedimentos e ações contra Curi tenham sido barrados ou julgados improcedentes.
Agora, a fotografia de Curitiba volta com outra legenda. Não é apenas o palanque de Moro com Flávio. É também o palanque de Filipe Barros depois de O Globo ligá-lo à engrenagem parlamentar que teria interessado ao Master.
Moro e Deltan, que fizeram carreira pública em nome do combate à corrupção, terão de escolher se tratam o caso como escândalo alheio ou como problema do próprio campo político. O eleitor paranaense viu os três no mesmo palco. A pergunta, portanto, não é retórica: quem responde pelo custo político dessa aliança?
Para Flávio Bolsonaro, o dano é nacional. Para Barros, o dano é paranaense. Para Moro, é eleitoral. Para Deltan, é moral. E para o PL, é orgânico: o caso Master deixou de ser apenas uma crise financeira e passou a testar a coerência da direita que prometia limpar o país, mas agora precisa explicar sua vizinhança com Daniel Vorcaro.
A Globo, que durante anos tratou a Lava Jato como ativo político, agora mira um aliado do bolsonarismo paranaense no coração de uma crise bancária. Há ironia histórica nessa cena. A velha mídia que ajudou a fabricar heróis anticorrupção agora publica a trilha que constrange os herdeiros políticos daquele ciclo.
O limite ético da cobertura é claro: Barros nega irregularidade, não foi condenado e tem direito de defesa. O limite político também é claro: quem sobe no palanque de Flávio Bolsonaro depois dos áudios com Vorcaro assume o risco de carregar o caso Master na sola do sapato.
Continue acompanhando no Blog do Esmael os desdobramentos do caso Master, da pré-campanha de 2026 e da disputa pelo poder no Paraná.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




