Flávio Bolsonaro usa guerra santa para fugir de Vorcaro

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usou o palanque de Guilherme Derrite (PP-SP), em Sorocaba, neste sábado (16), para falar em perseguição, Deus contra o diabo e resistência bolsonarista, deslocando para a guerra religiosa a crise aberta por suas conversas com Daniel Vorcaro no caso Dark Horse.

Flávio Bolsonaro não subiu ao palco para explicar em detalhes a relação com Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Subiu para reorganizar a tropa. A aposta foi clara: trocar a pergunta sobre dinheiro, contrato e filme por anistia, fé, segurança pública e ataque frontal ao presidente Lula (PT).

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) disse que adversários tentaram “enterrá-lo vivo” e afirmou que estava com “mais disposição do que nunca”. No mesmo discurso, atribuiu a Lula uma frase sobre “fazer o diabo” para vencer eleição, embora a fala original tenha sido de Dilma Rousseff (PT), em 2013, não do atual presidente.

O ato em Sorocaba marcou o lançamento da pré-candidatura de Derrite ao Senado por São Paulo. O deputado federal, ex-secretário de Segurança Pública do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), tenta ocupar uma das vagas paulistas ao Senado dentro do arranjo da direita em 2026.

Tarcísio não compareceu ao evento de Sorocaba. Sua assessoria informou que ele teve dor de garganta e sintomas de gripe, embora os adversários tenham entendido que o governador fugiu de Flávio Bolsonaro como o diabo foge da cruz. Na sexta-feira (15), Tarcísio havia participado, em Campinas, do primeiro ato de lançamento da pré-candidatura de Derrite.

A ausência física de Tarcísio não eliminou o recado político. Flávio Bolsonaro fez aceno público ao governador paulista e tentou mostrar unidade em uma semana na qual aliados da direita passaram a medir o custo eleitoral de aparecer ao lado do filho de Jair Bolsonaro.

O desgaste nasceu da revelação de conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre recursos para o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Dados da AP Exata apontaram 64,3% de menções negativas ao senador depois da divulgação do caso, o pior índice entre os nomes monitorados.

Flávio Bolsonaro disse ter buscado “patrocínio privado” para um “filme privado” sobre o pai, negou dinheiro público, negou ter oferecido vantagens e defendeu uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Banco Master. Essa é a versão do senador; ela não encerra a apuração nem elimina a cobrança política sobre sua relação com Vorcaro.

Sorocaba mostra que a defesa formal já não basta para a pré-campanha. Quando Flávio Bolsonaro fala em perseguição e põe a eleição no campo de Deus contra o diabo, ele tenta proteger o eleitor mais fiel, sobretudo o bolsonarista orgânico, o evangélico conservador e a base mobilizada pela anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro.

Moro voou até São Paulo, onde prestigiou Flávio Bolsonaro e Guilherme Derrite. Foto: reprodução/Filipe Barros

O problema é que a crise não ficou em São Paulo. O Paraná entrou na conta porque Sergio Moro (PL), pré-candidato ao Palácio Iguaçu, apareceu na agenda de Campinas ao lado de Flávio e Derrite.

Para Moro, São Paulo é sempre um ponto sensível. Em 2022, o ex-juiz tentou transferir o domicílio eleitoral para disputar por lá, mas a Justiça Eleitoral barrou a manobra. Ele voltou ao Paraná e se elegeu senador. Agora, como pré-candidato ao governo estadual, cada aparição paulista reacende a cobrança adversária sobre sua prioridade real.

Deltan Dallagnol também foi arrastado para esse nó. O Blog do Esmael registrou que Romeu Zema (Novo-MG) ganhou visibilidade ao criticar Flávio Bolsonaro, mas enfrentou resistência dentro do próprio Novo, inclusive no Paraná, onde a aliança regional com o PL pesa mais que a disputa presidencial do partido.

A encrenca paranaense é simples de entender. Se Zema bate em Flávio Bolsonaro, atinge o PL. Se o Novo paranaense poupa Flávio Bolsonaro, preserva a ponte com Moro. Se Moro gruda em Flávio Bolsonaro, carrega o caso Vorcaro para a campanha estadual. Se tenta se afastar, enfraquece o acordo que sustenta Deltan no campo da direita.

Flávio Bolsonaro saiu de Sorocaba sem apagar Vorcaro. O discurso religioso pode segurar a base mais fiel, mas não responde por que um pré-candidato ao Planalto precisou explicar dinheiro, filme e banqueiro no meio da largada de 2026. Para Moro e Deltan, o palanque paulista virou um problema paranaense.

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