Moro promete agência anticorrupção enquanto poupa Flávio Bolsonaro

O senador Sergio Moro (PL-PR), pré-candidato ao governo do Paraná, prometeu criar uma agência estadual anticorrupção caso seja eleito, mas entrou no caso BolsoMaster pela porta estreita da defesa política de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu correligionário e pré-candidato à Presidência. A proposta visa o eleitor que ainda associa Moro à Lava Jato; a crise do Banco Master testa se essa régua vale também dentro do PL.

A ideia de Moro é criar uma estrutura com independência administrativa e dirigente com mandato fixo para investigar desvios e prevenir irregularidades no governo estadual. Em abril, ele já havia defendido proposta semelhante, quando falou em uma agência com autonomia e comando com mandato definido.

O problema político é que o Paraná já tem uma Controladoria-Geral do Estado (CGE), canal oficial de transparência, ouvidoria e denúncia de corrupção, além do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), que fiscaliza o governo estadual, a Assembleia Legislativa, o Judiciário, o Ministério Público, a Defensoria e os 399 municípios paranaenses.

Antes de vender a nova agência como solução, Moro precisa dizer o que ela faria que a CGE, o Ministério Público do Paraná (MPPR), o TCE-PR e as corregedorias já não fazem. Também terá de explicar orçamento, poder de investigação, forma de escolha da direção, controle externo e proteção contra uso eleitoral da máquina.

A pergunta é simples: quem vigia o xerife?

A promessa reaparece num momento ruim para o lavajatismo paranaense. O Intercept Brasil publicou mensagens e áudios que, segundo a reportagem, ligam Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, na busca de dinheiro para bancar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. O material aponta interlocução direta, cobrança por liberação de recursos e tratativas operacionais.

Flávio Bolsonaro afirma que se tratava de patrocínio privado e nega contrapartida indevida. A defesa é uma declaração política, não uma auditoria. Ela não responde, por si só, qual foi o caminho do dinheiro, quais contratos foram assinados, quem recebeu, quem intermediou e qual papel teve o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) no entorno da produção.

Moro, porém, escolheu outro caminho. Em publicação registrada na quinta-feira (14), disse que Flávio Bolsonaro “apresentou suas explicações”, atacou o PT e defendeu a CPMI do Banco Master. A frase desloca o foco do aliado para o adversário, mas não resolve a contradição central.

O ex-juiz pode defender uma investigação ampla sobre o Banco Master. Isso é legítimo. O que pesa é aceitar como suficiente a explicação de Flávio Bolsonaro enquanto promete ao Paraná uma estrutura anticorrupção com autonomia e mandato fixo.

A Lava Jato construiu sua força pública dizendo que proximidade política, versões convenientes e contratos privados não bastavam para encerrar suspeitas. Agora, o pré-candidato ao Palácio Iguaçu precisa dizer se esse padrão continua valendo quando o personagem investigado é peça do mesmo palanque.

O caso também já virou disputa local. Requião Filho (PDT), deputado estadual e adversário de Moro na corrida ao governo, cobrou manifestação pública do senador sobre os áudios de Flávio Bolsonaro e Vorcaro. O Blog do Esmael registrou a cobrança na quinta-feira (14), antes da resposta de Moro nas redes.

A resposta não tirou Moro da vitrine. Ao contrário, colocou o pré-candidato no ponto exato em que a campanha de 2026 no Paraná deve bater: anticorrupção será programa de governo ou blindagem seletiva de aliados?

Se a agência prometida por Moro nascer sem desenho técnico, parecerá slogan de campanha. Se nascer com poder real, terá de conviver com órgãos já existentes e enfrentar o primeiro teste público antes mesmo da eleição: explicar por que Flávio Bolsonaro recebeu crédito político imediato enquanto o eleitor ainda não viu contrato, planilha, comprovante e resposta completa sobre o dinheiro do filme.

Moro quer vender ao Paraná uma CGU estadual. O caso BolsoMaster cobra dele algo anterior à minuta: coerência pública. Quem promete vigiar o poder precisa começar explicando por que poupa o próprio palanque.

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