O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), imitou Eduardo Bolsonaro ao recorrer a Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, para tentar resolver problemas domésticos do Brasil, como se o país fosse uma colônia.
O mandatário fluminense entregou relatório pedindo que Washington classifique o Comando Vermelho como organização narcoterrorista, o que abriria caminho para sanções e eventual intervenção externa em território brasileiro.
A matança de 121 pessoas na operação nos complexos do Alemão e da Penha, na semana passada, virou pretexto para internacionalizar o conflito e desafiar a soberania nacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é aconselhado a chamar Ricardo Cappelli para missão federal no Rio.
O gesto replica a fórmula fracassada de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que, nos Estados Unidos, tenta instigar Trump contra autoridades e instituições brasileiras. Em vez de governar, exporta crise e flerta com tutela externa sobre a segurança pública fluminense.
O relatório entregue à embaixada dos EUA sustenta que o Comando Vermelho se enquadra nos critérios americanos de terrorismo e sanções econômicas. Defende bloqueio de ativos, facilitação de extradições, acordos diretos com DEA e FBI e punições a empresas associadas, mesmo sem provas conclusivas. Trata o Brasil como incapaz de gerir sua própria segurança.
À luz do direito internacional e da Constituição Federal do Brasil, o país não extradita, em hipótese alguma, seus cidadãos natos.
Auxiliares do presidente Lula consideram a proposta temerária. Temem que bancos brasileiros possam ser excluídos do sistema Swift caso autoridades americanas apontem vínculos suspeitos de correntistas. O Planalto vê risco a empresas nacionais e alerta que a Constituição atribui à União, e não a governos estaduais, a coordenação internacional de segurança.
A reação no Congresso também se intensificou. O deputado Lindbergh Farias, do PT do Rio de Janeiro e líder do partido na Câmara, classificou a iniciativa como gravíssima. Segundo ele, Cláudio Castro “foi longe demais” ao acionar o governo dos Estados Unidos sem aval do Executivo brasileiro e pedir a classificação do Comando Vermelho como organização terrorista, o que, nas palavras do parlamentar, “abre caminho para sanções econômicas e até uma intervenção estrangeira em território nacional”.
Lindbergh informou que ingressou no Supremo Tribunal Federal com representação contra o governador por crime de traição e atentado à soberania nacional, afirmando que não permitirá que a política fluminense seja usada “como ponte para violar o Brasil”.
A memória recente pesa. A Lei Magnitsky já foi usada por setores nos EUA para mirar autoridades brasileiras, como o ministro Alexandre de Moraes, sem processo no Brasil. Ampliar essa porta reforçaria interferência política estrangeira.
A Polícia Federal rejeitou tratativas diretas com a DEA. No entanto, a operação com alto número de mortos impulsionou a tentativa de importar doutrina bélica externa para o Rio, ignorando direitos humanos e contexto social. Líderes federais avaliam que o estado vive crise de comando e que intervenção legal e técnica pode ser necessária.
Ricardo Cappelli, ex-interventor na Segurança Pública do Distrito Federal, no 8 de janeiro de 2023, é citado em Brasília como nome para coordenar ação federal, com foco em inteligência, integração das forças e proteção de vidas. A ideia seria restaurar autoridade estatal legítima, sem espetáculo e sem submissão diplomática.
A aposta de Castro em Trump reedita práticas coloniais e afronta a história latino-americana, marcada por resistências à tutela estrangeira. Segurança pública exige Estado presente, política social, controle de armas e planejamento, não apelos a potências externas.
O Brasil não pede permissão para se defender. Pede respeito à sua soberania e justiça para suas periferias. Lula, chama o Cappelli.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




