Morre Raimundo Pereira, referência contra a ditadura

O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira morreu no Rio de Janeiro, aos 85 anos, neste sábado (2), e a imprensa brasileira perdeu uma referência de resistência democrática contra a censura da ditadura militar. Fundador do jornal Movimento, ele enfrentou prisão, perseguição política e veto oficial antes de virar símbolo da imprensa alternativa.

Pernambucano de Exu, Raimundo nasceu em 8 de setembro de 1940. Em 1960, entrou no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, para cursar Engenharia.

Foi ali que a ditadura cruzou sua vida. Ainda estudante, Raimundo foi perseguido pelo conteúdo publicado em O Suplemento, jornal feito por alunos do ITA. Em 1964, no ano do golpe militar, foi expulso da instituição e preso.

A prisão passou pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops-SP) e pela Base Aérea do Guarujá. O Memorial da Resistência registra que ele ficou cerca de dois meses encarcerado.

A biografia de Raimundo também teve passagem curitibana.

Em 8 de abril de 1999, este blogueiro participou de uma palestra de Raimundo Pereira no Reage Brasil, movimento organizado em Curitiba contra a entrega do patrimônio público.

Também esteve no evento o então prefeito da capital Cássio Taniguchi (PDT). O encontro tinha uma chave pessoal. Taniguchi e Raimundo foram colegas do ITA.

O Memorial da Resistência registra que Raimundo iniciou Engenharia no mesmo ITA em 1960 e foi expulso em 1964, quando cursava o quinto ano.

Depois da prisão, Raimundo estudou Física na Universidade de São Paulo (USP), mas fez do jornalismo sua trincheira. Trabalhou em veículos como Realidade e O Estado de S. Paulo, antes de ganhar projeção na imprensa alternativa.

Em 1972, foi chamado para dirigir o semanário Opinião. Em 1975, liderou a fundação do Movimento, criado por jornalistas que haviam saído do Opinião.

O Movimento chegou às bancas em 7 de julho de 1975. Nasceu como um “jornal de jornalistas”, sem empresário no comando, e defendia uma frente de oposição à ditadura e uma Assembleia Constituinte, isto é, uma nova Constituição feita em ambiente de liberdade.

A censura bateu desde a primeira edição.

Durante três anos, o Movimento sofreu censura prévia. Foram 3.093 artigos vetados na íntegra, 3.162 ilustrações cortadas e cerca de 4,5 milhões de palavras proibidas.

O jornal circulou até novembro de 1981. Teve 334 edições e 5 delas foram apreendidas nas bancas. O número mostra o tamanho da pressão: a ditadura não queria apenas discordar da imprensa crítica, queria impedir que ela chegasse ao leitor.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lamentou a morte de Raimundo e afirmou que o país perdeu um de seus maiores jornalistas. Lula citou a perseguição, a prisão e a defesa da democracia e da liberdade de imprensa.

A morte de Raimundo Rodrigues Pereira recoloca a imprensa diante de sua própria memória. Sem jornalistas dispostos a enfrentar censura, pressão econômica e intimidação política, a democracia perde um de seus instrumentos de defesa.

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