O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, virou combustível para o discurso de soberania do presidente Lula (PT) em 2026: a tensão com o Irã empurrou o Brent para perto de US$ 107 por barril nesta sexta-feira (24), ameaçando diesel, frete, comida e inflação no Brasil.
As bolsas registram o Brent a US$ 107,25 por barril em 24 de abril, com alta semanal de 18%, puxada pela escalada no Estreito de Ormuz, rota por onde passa uma fatia decisiva do petróleo mundial. O petróleo americano WTI também subiu, a US$ 97,63.
O dado bruto já seria grave.
A política torna tudo mais inflamável.
Trump mandou os militares americanos “atirar e matar” embarcações iranianas que instalassem minas em Ormuz, segundo a Associated Press. O presidente americano também afirmou ter “controle total” do estreito, enquanto o Irã capturou navios e expôs a fragilidade da rota.
É esse o ponto que o Partido dos Trabalhadores tende a explorar nas eleições presidencias de outubro.
Se o diesel subir no Brasil, o governo Lula dirá que a origem da pressão está em Washington, não em Brasília. A conta política é simples: Trump acende a crise no Oriente Médio, o petróleo sobe, o frete pesa, o alimento encarece e a oposição tenta jogar a fatura no colo do Planalto.
Trump é passivo que entra na conta do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e da extrema direita.
Ormuz fica longe no mapa, mas perto da feira.
A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) informou que cerca de 20 milhões de barris por dia passaram pelo Estreito de Ormuz em 2024, o equivalente a aproximadamente 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo. A Agência Internacional de Energia (IEA) trata a passagem como um dos gargalos mais críticos do planeta.
O Brasil não precisa importar todo o seu diesel dali para sentir a pancada.
O preço interno conversa com petróleo, dólar, custo de reposição e expectativa do mercado. Quando o barril dispara, o caminhoneiro, o produtor rural, o transporte urbano e a indústria passam a olhar para a bomba com medo.
O efeito chega depois ao supermercado.
Arroz, feijão, carne, leite, cimento, remédio e passagem carregam frete dentro do preço. Diesel caro vira inflação espalhada. Inflação espalhada vira problema para Lula, para o Banco Central e para a eleição de 2026.
Por isso o governo tenta construir uma defesa antes da pancada.
Na quinta-feira (23), o Executivo enviou ao Congresso o Projeto de Lei Complementar 114 de 2026, que permite usar receita extra do petróleo para reduzir tributos sobre combustíveis. A ideia é transformar a arrecadação adicional gerada pela alta do barril em alívio na bomba.
A proposta mira tributos federais como Programa de Integração Social (PIS), Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide). Em linguagem simples: o governo quer cortar imposto sobre combustível usando dinheiro extra que entra quando o petróleo sobe.
A manobra tem lógica econômica e utilidade eleitoral.
Se funcionar, Lula dirá que protegeu o bolso do trabalhador de uma crise fabricada pela política externa de Trump. Se falhar, a direita tentará transformar o preço do diesel em cabo eleitoral contra o governo.
O problema para a oposição é que Trump já vem entregando assunto ao PT.
O tarifaço americano deixou 22% das exportações brasileiras para os Estados Unidos ainda atingidas por tarifa extra de 40%, mesmo depois de uma rodada de alívios anunciada por Washington, segundo a Reuters. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços calculou o impacto com base nos valores exportados em 2024.
Depois veio a crise diplomática envolvendo a Polícia Federal (PF).
Washington pediu a saída do delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, adido de segurança em Miami. Em reação, a PF revogou as credenciais de um oficial de imigração dos Estados Unidos que atuava em Brasília, em medida tratada pelo governo brasileiro como reciprocidade.
Tarifaço, expulsão de delegado e Ormuz formam a mesma linha política para o PT.
Trump aparece como o presidente americano que pressiona a economia brasileira, constrange a soberania diplomática e agora ajuda a encarecer o petróleo que pode bater no diesel. Para Lula, é um adversário externo útil demais para ficar fora do palanque.
A direita brasileira fica em posição desconfortável.
Se defender Trump, terá de explicar por que o aliado ideológico de Jair Bolsonaro pesa no frete, na comida e na inflação do brasileiro. Se criticar Trump, perde a cola internacional que alimenta parte do bolsonarismo desde 2018.
É por isso que Ormuz deixou de ser apenas uma crise no Oriente Médio.
O estreito virou peça da disputa presidencial brasileira. A guerra no petróleo abastece a narrativa de soberania nacional, e Trump pode chegar a 2026 como cabo eleitoral involuntário de Lula.
O preço do diesel vai decidir se essa narrativa vira discurso ou voto. Se a bomba subir, Lula tentará mostrar que a crise veio de fora, com a assinatura política de Trump, fiador externo do bolsonarismo, e que o Brasil precisa defender o próprio bolso contra Washington e contra quem transformou o trumpismo em bússola no Brasil.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




