O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, visitou Anderson Torres na Papudinha, em Brasília, e assumiu publicamente a defesa da “anistia total” aos condenados do 8 de Janeiro, dois dias depois da derrubada do veto à Dosimetria no Congresso Nacional.
A cena é simples e pesada.
Flávio Bolsonaro saiu da comemoração parlamentar e levou a campanha para dentro do 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha, onde Torres cumpre pena.
Torres foi ministro da Justiça no governo Jair Bolsonaro (PL) e secretário de Segurança Pública do Distrito Federal nos atos de 8 de janeiro de 2023. Foi condenado pelo STF a 24 anos de prisão por participação na trama golpista.
Na postagem, Flávio Bolsonaro disse ter conversado com Torres sobre segurança pública e prometeu seguir lutando pela “anistia total”. Anistia, em português direto, é perdão legal para apagar ou neutralizar punições.
A frase não é detalhe de rede social.
Ela mostra que o candidato do bolsonarismo não quer apenas reduzir pena. Quer vender a tese de que condenados por tentativa de golpe são vítimas políticas.
A Dosimetria, que calcula o tamanho da pena, já era uma vitória do campo bolsonarista no Congresso. A visita a Torres muda o enquadramento: a direita tenta transformar condenado em personagem de campanha.
O Congresso derrubou na quinta-feira (30) o veto do presidente Lula (PT) ao projeto da Dosimetria. O placar foi de 318 votos na Câmara e 49 no Senado pela derrubada do veto.
A lei ainda depende de promulgação e publicação no Diário Oficial. Se Lula não promulgar, a tarefa passa ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Torres pode ser beneficiado por redução de pena, mas a palavra final sobre eventual diminuição cabe ao STF, responsável pela execução da pena.
Esse é o ponto político.
Flávio Bolsonaro posa como presidenciável, mas sua agenda real segue amarrada ao 8 de Janeiro, à prisão de aliados e ao enfrentamento com o STF.
A campanha presidencial, assim, nasce com uma promessa concreta: mexer no destino judicial de quem foi condenado por atacar a democracia.
Para o eleitorado bolsonarista, a Papudinha vira altar de lealdade.
Para o centro político, vira aviso.
Flávio Bolsonaro pode tentar vestir roupa de candidato nacional, mas cada gesto o puxa de volta ao núcleo duro do bolsonarismo: anistia, revanche institucional e absolvição política dos atos de 8 de Janeiro.
A visita a Anderson Torres não encerra a disputa sobre a Dosimetria. Ela mostra o próximo passo da direita: transformar a pauta penal dos golpistas em programa eleitoral para 2026.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




