O senador Sergio Moro (PL), pré-candidato ao governo do Paraná, saiu da rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) com um troféu nacional e um recado local: quem não embarcar na linha dura bolsonarista será tratado como aliado de Lula.
Antes de disputar o holofote da ponte de Guaratuba e aparecer no 1º de Maio em Cascavel, Moro estava na trincheira que ajudou a impor ao presidente Lula (PT) a derrota mais dura de sua relação com o Senado.
Na quarta-feira (29), o Senado rejeitou Messias por 42 votos contrários e 34 favoráveis. A indicação precisava de 41 votos para ser aprovada. Foi a primeira rejeição de um indicado ao STF em 132 anos, desde 1894.
Moro comemorou a derrota do advogado-geral da União (AGU) como “vitória histórica” e escreveu que queria um STF “independente de Lula e do Poder Executivo”. A frase serviu para Brasília, mas mirou também o Paraná.
A coluna de Malu Gaspar, no Globo, revelou bastidores mais incômodos para a narrativa simples da oposição. Segundo a apuração, além de Davi Alcolumbre (União-AP) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ministro Alexandre de Moraes atuou nos bastidores pela rejeição de Messias, em uma aliança insólita com a tropa de choque bolsonarista no Senado.
O ponto político é esse: Moro vendeu a queda de Messias como vitória da direita contra Lula, mas a engrenagem descrita pelo Globo mostra uma operação com interesses cruzados no Senado, no STF e na sucessão de poder em Brasília.
A coluna atribuiu a movimentação de Moraes ao receio de que Messias fortalecesse André Mendonça dentro da Corte. Mendonça foi cabo eleitoral do indicado de Lula e é relator do caso Master no Supremo.
Para Moro, porém, a nuance atrapalha o palanque. O ex-juiz da Lava Jato preferiu transformar a votação em senha de alinhamento para 2026.
Na sequência, o Congresso derrubou na quinta-feira (30) o veto de Lula ao Projeto da Dosimetria, que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. Foram 318 deputados e 49 senadores pela derrubada do veto, acima dos 257 deputados e 41 senadores exigidos.
A medida pode beneficiar Jair Bolsonaro (PL) e outros condenados por tentativa de golpe. A Associated Press registrou que a lei deve ser questionada no STF e pode reduzir em até 20 anos a pena do ex-presidente, condenado a 27 anos.
Moro se somou a essa vitória da direita no Congresso. No intervalo de menos de 24 horas, comemorou a rejeição de Messias e aderiu à derrubada do veto que abriu caminho para a redução de pena dos condenados pelo 8 de janeiro.
Depois, elevou o tom contra os adversários paranaenses. Em publicação nas redes, cobrou silêncio de concorrentes ao governo do Paraná e atacou quem não celebrou a derrota de Messias. A frase mais pesada foi direta: o Paraná “não é lugar para bandidos, petistas ou frouxos”.
A provocação não mira apenas o campo Lula. Ela mira o Palácio Iguaçu, a direita governista e setores conservadores que não querem transformar a eleição estadual em extensão automática do bolsonarismo.
Moro tenta obrigar seus adversários a escolherem entre três rótulos ruins: omissos, lulistas ou frouxos. É linguagem de campanha, não de Senado.
A agenda no Oeste do Paraná reforçou essa mudança de marcha. Veículos locais registraram a presença de Moro na Festa do Trabalhador e na Festa do Costelão, em Cascavel, na sexta-feira (1º).
A costela, a ponte e a foto popular compõem a parte visível da pré-campanha. O movimento mais relevante, porém, ocorreu antes, em Brasília, quando Moro saiu da votação de Messias com munição para pressionar a direita paranaense.
No Paraná, a disputa deixou de ser apenas sobre aprovação de Ratinho Junior (PSD), ponte entregue ou almoço em festa popular. A pergunta agora é quem aceitará disputar 2026 no tom imposto por Moro.
O ex-juiz tenta fazer do estado uma fortaleza do bolsonarismo, mas essa aposta cobra preço. Ao colar sua pré-campanha à rejeição de Messias e à Dosimetria, Moro amarra o governo do Paraná à pauta nacional da anistia, do STF e do 8 de janeiro.
A direita que cerca o Palácio Iguaçu sabe que esse caminho mobiliza a militância, mas também estreita o discurso. Quem sonhava com campanha propositiva terá de responder à pauta dos condenados por tentativa de golpe.
Moro quer transformar a eleição estadual em plebiscito contra Lula. O risco para seus aliados é entregar o Paraná a uma guerra nacional que não cabe inteira na ponte de Guaratuba nem no costelão de Cascavel.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




