O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) saiu da rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) com fôlego político, mas a vitória no Senado não apaga a contradição que já cola em sua pré-campanha: vender moderação enquanto promete libertar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), seu pai.
O plenário do Senado barrou Messias na quarta-feira (29), por 42 votos contra e 34 a favor, na primeira rejeição de um indicado ao STF em 132 anos. O advogado-geral da União precisava de 41 votos para ser aprovado.
Flávio Bolsonaro apostou contra o indicado do presidente Lula (PT). Ganhou o round.
O problema é que o round não resolve a eleição.
O perfil publicado pelo Washington Post no sábado (25) cravou o dilema do filho zero um de Bolsonaro: ele disputa a Presidência com a missão de tirar o pai da prisão e, ao mesmo tempo, tenta se apresentar como uma versão mais moderada do bolsonarismo.
Essa é a conta que Flávio Bolsonaro carrega.
A derrota de Messias no Senado ofereceu ao senador uma fotografia de força dentro da direita. O voto secreto permitiu à oposição medir o desgaste do governo Lula no Congresso sem expor cada senador ao custo individual da decisão.
Mas a campanha presidencial não será secreta.
Flávio Bolsonaro terá de explicar ao eleitorado se seu projeto é governar o país ou reabrir a guerra judicial da família Bolsonaro. O Washington Post registra que ele promete indultar o pai caso chegue ao Palácio do Planalto.
Indulto é o perdão presidencial de pena. Em linguagem simples, é o ato pelo qual um presidente pode extinguir ou reduzir punições dentro dos limites da lei.
A palavra é técnica. O efeito político é direto.
Flávio Bolsonaro tenta falar com centro, mulheres e eleitores cansados da pancadaria permanente, mas seu eixo de campanha continua preso ao destino judicial de Jair Bolsonaro.
O sobrenome é trunfo dentro da base bolsonarista. Também é o peso que impede a candidatura de caminhar sozinha.
A rejeição de Messias serviu para mostrar que o bolsonarismo ainda tem musculatura no Senado. Também expôs a fragilidade do Planalto na articulação com a Casa comandada por Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Nada disso muda o nó de Flávio Bolsonaro.
A moderação que ele tenta vender exige algum grau de distância do radicalismo que levou Bolsonaro ao isolamento político e à prisão. A promessa de libertar o pai exige o movimento contrário: reafirmar lealdade total ao clã.
É uma campanha com dois discursos dentro do mesmo palanque.
Para a direita, Flávio Bolsonaro precisa provar que não traiu Jair Bolsonaro. Para o eleitor de centro, precisa fingir que a eleição de 2026 não será um plebiscito sobre a família Bolsonaro.
O Senado lhe deu uma vitória.
A prisão do pai lhe devolve a conta.
A rejeição de Messias empurrou Lula para uma derrota histórica, mas também colocou Flávio Bolsonaro diante de sua própria vitrine. O senador ganhou fôlego no Congresso, porém a eleição cobra mais do que aplauso de bancada.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




