PF fecha porta para delação de Vorcaro e aperta caso BolsoMaster

A Polícia Federal (PF) recusou endossar a proposta de colaboração premiada de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e empurrou o caso para uma disputa de relógios entre investigação, Procuradoria-Geral da República (PGR) e Congresso Nacional. A decisão não encerra a negociação, mas enfraquece a tentativa de Vorcaro de construir uma saída rápida no maior caso financeiro em curso no país.

A PF considerou inconsistentes as informações apresentadas por Vorcaro quando comparadas às provas e indícios reunidos desde 2024, ano em que começou a apuração sobre a emissão de títulos de crédito sem cobertura. A PGR, porém, ainda avalia a proposta, o que mantém aberta uma frente de negociação fora da PF.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), é o relator do inquérito e teria a palavra final sobre a homologação de eventual acordo. Pela regra da colaboração premiada, ele não participa da negociação entre investigadores, procuradores e defesa, mas precisa validar o acordo para que seus efeitos passem a valer.

A recusa da PF muda o tempo político do Master. Sem delação aceita pelos investigadores, Vorcaro perde força para oferecer uma narrativa controlada. Ao mesmo tempo, a PGR ganha peso como possível porta de entrada para um acordo que ainda dependeria de informações novas, úteis e verificáveis.

Esse intervalo interessa a muita gente em Brasília. O Congresso já tem pedidos de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Banco Master com assinaturas acima do mínimo constitucional, mas o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), afirmou que a leitura dos requerimentos é ato discricionário da Presidência do Congresso.

Parlamentares citaram dois pedidos: um com 238 deputados e 42 senadores, apresentado pelo deputado Carlos Jordy (PL-RJ), e outro com 181 deputados e 35 senadores, das deputadas Fernanda Melchionna (Psol-RS) e Heloísa Helena (Rede-RJ). O mínimo para criar CPMI é de 171 deputados e 27 senadores.

É aí que o caso encosta em Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O senador disse na sessão que não tem nada a esconder e que quer ver Vorcaro “sentado na CPMI”, segundo registro do Blog do Esmael. A frase tenta inverter o ônus político: em vez de aparecer como atingido pelo Master, Flávio Bolsonaro tenta posar como interessado na apuração.

A dificuldade é que a crise já alcançou sua pré-campanha. O Blog registrou que Flávio Bolsonaro admitiu ter se encontrado pessoalmente com Vorcaro depois da primeira prisão do banqueiro, em uma conversa que, segundo ele, tratava do encerramento das negociações para financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro (PL). O senador nega irregularidade.

Não há elemento público suficiente para afirmar que a rejeição da delação pela PF blinda Flávio Bolsonaro. O que existe, de forma verificável, é um ganho momentâneo de calendário para quem teme a abertura imediata da CPMI. Sem comissão instalada e sem delação homologada, o caso segue espalhado entre inquérito, PGR, Senado e desgaste público.

Esse ganho, porém, não é absolvição política. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ainda tinha cerca de R$ 2,2 bilhões a serem sacados por credores de instituições ligadas ao Master, segundo dados divulgados pelo FGC, que é uma associação privada sem fins lucrativos mantida pelos bancos. Eram 99.605 credores com valores disponíveis, incluindo 42.305 investidores ligados ao Banco Master.

O dinheiro parado mantém a crise fora da bolha de Brasília. A garantia do FGC tem limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição, e valores acima desse teto ficam como saldo remanescente, dependente da liquidação. Para pequenos investidores, o caso não é disputa de plenário; é saldo, confiança e medo de prejuízo.

Por isso, a recusa da PF não limpa o Master. Ela apenas retira, por enquanto, a narrativa de uma colaboração capaz de organizar culpados, delatores, beneficiários e devolução de dinheiro em um pacote único. A apuração segue viva porque ainda há preso, inquérito, PGR, credores e pressão parlamentar.

No Paraná, a consequência eleitoral passa pelo custo de associação. Qualquer palanque que se aproxime de Flávio Bolsonaro terá de lidar com a pergunta que a CPMI ainda não respondeu: quem ganhou tempo com a demora e quem perde se a investigação avançar com nome, documento e fluxo de dinheiro.

A trava de Alcolumbre já foi tratada pelo Blog do Esmael como fôlego político para Flávio Bolsonaro, mas o novo fio é outro: a PF fechou uma porta, a PGR ainda pode abrir outra, e o Congresso segue sentado sobre uma comissão que já teria assinaturas para nascer.

A blindagem, se existir, não está provada por documento público. O desgaste, sim. Enquanto R$ 2,2 bilhões seguem no radar do FGC e Vorcaro tenta negociar sem o aval da PF, o caso BolsoMaster continua sangrando a direita que queria chegar a 2026 falando de segurança, economia e anticorrupção.

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