O ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca (MDB) fez da vitrine administrativa da capital, nesta semana, uma peça de pré-campanha e reacendeu a dúvida que ronda o MDB, o Palácio Iguaçu e o PSD: ele está disputando o governo do Paraná em 2026 ou guardando munição para voltar à Prefeitura de Curitiba em 2028.
A pergunta ganhou força depois de Greca capitalizar o resultado do Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026, que apontou Curitiba como a capital com melhor qualidade de vida do país. O levantamento colocou a cidade em quinto lugar no ranking nacional, com nota 71,29, atrás apenas de municípios menores e fora do eixo das grandes capitais.
O dedo de Greca, na própria peça usada para vender o legado curitibano, virou metáfora involuntária da sua pré-campanha. Aponta mais para Curitiba que para o Iguaçu. A imagem não confirma um recuo, mas alimenta a leitura de que o ex-prefeito usa 2026 para seguir no jogo estadual sem fechar a porta principal: a volta ao Palácio 29 de Março em 2028.
Nada impede Greca de defender o próprio legado. Ele governou Curitiba por três mandatos, e a cidade é sua principal base eleitoral. O problema político aparece quando um pré-candidato ao Palácio Iguaçu fala mais como ex-prefeito em busca de recall municipal do que como candidato disposto a enfrentar a máquina estadual, o herdeiro de Ratinho Junior (PSD) e o senador Sergio Moro (PL).
Greca deixou o PSD, partido de Ratinho Junior, e foi para o MDB para tentar viabilizar a candidatura ao governo do Paraná. Ele se apresenta como pré-candidato e rejeita o papel de “plano C” do governador, ao mesmo tempo em que reivindica sua trajetória administrativa em Curitiba como credencial para o Estado.
A ambiguidade não nasceu agora. Em novembro de 2025, durante evento em Curitiba, Greca falou publicamente que Eduardo Pimentel (PSD) deveria ser “de novo prefeito de Curitiba”, numa referência à reeleição de seu sucessor em 2028. A fala ajudou Pimentel, mas também amarrou Greca à capital quando ele já se apresentava como nome para 2026.
Na política, o seguro morreu de velho. Quando um ex-prefeito forte elogia a própria obra, celebra índices positivos da cidade e evita romper com antigos aliados, o gesto pode servir a dois calendários: a eleição estadual de 2026 e a disputa municipal de 2028.
O ponto sensível é que Greca tenta comer o omelete sem quebrar os ovos. Até aqui, sua movimentação pública preserva Ratinho Junior, não confronta Sandro Alex (PSD), escolhido pelo grupo governista para disputar o Palácio Iguaçu, e também não mira diretamente Sergio Moro, que aparece à frente em pesquisas recentes sobre a sucessão estadual.
Esse cálculo mantém portas abertas, mas cobra preço. Candidato a governador precisa nacionalizar e estadualizar o discurso, falar com o interior, encarar temas duros e marcar diferença. Greca, por enquanto, segue mais confortável quando a pauta é Curitiba.
O Blog do Esmael registrou na sexta-feira (22) que governistas trabalham com a hipótese de Greca ocupar a vice de Sandro Alex. A mesma costura tenta resolver outro incômodo: Cristina Graeml (PSD), que virou passivo dentro da base de Ratinho Junior, segundo deputados e prefeitos ouvidos pelo Blog.
A operação é delicada. Para parte do Palácio Iguaçu, Greca entregaria densidade eleitoral em Curitiba, trânsito empresarial e memória administrativa. Para o MDB, porém, uma vice pode significar abandonar o projeto próprio antes de testar a musculatura real do ex-prefeito no Estado.
Cristina Graeml complica a equação. O desconforto no PSD cresceu depois da filiação da jornalista ao grupo de Ratinho Junior, especialmente porque Eduardo Pimentel derrotou Graeml no segundo turno de 2024 e não vê razão política para dividir espaço com a adversária que quase tomou Curitiba da base governista.
Se Greca aceitar uma vice, ajuda Sandro Alex a buscar Curitiba e reduz o risco de isolamento. Se insistir no governo, terá de provar que sua força não termina nos bairros da capital. Se guardar energia para 2028, o discurso sobre o IPS vira menos projeto estadual e mais senha municipal.
A dúvida incomoda porque Greca sabe que Curitiba é seu ativo mais forte. O eleitorado, porém, terá de descobrir se esse ativo será usado para enfrentar a eleição do Paraná ou para manter vivo o caminho de volta ao Palácio 29 de Março.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




