O Irã voltou a endurecer as restrições no Estreito de Ormuz neste sábado (18), menos de 24 horas depois de uma abertura limitada anunciada na sexta-feira (17). Navios mercantes receberam aviso de rádio de que não poderiam passar, e ao menos duas embarcações relataram tiros e recuaram sem concluir a travessia, segundo a Reuters; a Associated Press também registrou o retorno do controle rígido iraniano sobre a rota.
A abertura da sexta-feira (17) foi curta. Mais de uma dúzia de petroleiros chegou a cruzar Ormuz após o afrouxamento inicial, mas o corredor voltou a travar no sábado (18). A agência marítima britânica UKMTO recebeu relato de um petroleiro abordado por lanchas da Guarda Revolucionária do Irã, com disparos contra o navio, embora a tripulação tenha ficado em segurança.
O tamanho do problema explica a tensão. Em 2024, passaram por Ormuz cerca de 20 milhões de barris por dia, volume equivalente a 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo e a mais de um quarto do comércio marítimo global de óleo. A rota também carregou perto de um quinto do gás natural liquefeito do planeta.
Na sexta-feira (17), bastou a promessa de passagem liberada para o Brent despencar 9,07% e fechar a US$ 90,38 o barril. O recuo dos navios e a volta das restrições no sábado (18) recolocam no radar do mercado uma gordura extra no preço do petróleo, cobrada pelo medo de falta de oferta, quando os negócios reabrirem.
Para o Brasil, o ponto mais sensível é o diesel. Reportagens da Reuters publicadas em março e abril mostram que cerca de 25% do diesel consumido no país é importado. Quando Ormuz trava, o combustível pesa mais na conta de quem importa, pressiona a logística e encarece o frete rodoviário que move a maior parte da carga brasileira.
A inflação já vinha sentindo o choque externo antes mesmo deste novo aperto. Em 10 de abril, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do país, subiu 0,88% em março e acumulou 4,14% em 12 meses, com avanço de 4,59% na gasolina e pressão concentrada em transporte e combustíveis. O próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), segundo a agência, ligou o movimento à incerteza geopolítica no Oriente Médio.
Em Ormuz, o conflito deixa de ser mapa e vira custo. Se a rota continuar sob tiro, rádio de bloqueio e passagem seletiva, a conta tende a sair do Golfo Pérsico e cair direto na bomba, no caminhão e na gôndola brasileira.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




