Cessar-fogo entre EUA e Irã patina com Ormuz no centro

Os governos dos Estados Unidos e do Irã negociam prorrogar por mais 15 dias o cessar-fogo iniciado em 8 de abril, mas a trégua continua frágil porque o Estreito de Ormuz segue no centro do impasse. É desse ponto do mapa que a crise externa volta a bater no bolso brasileiro, pelo preço do petróleo, do diesel e, na sequência, da inflação.

A prorrogação foi tratada como caminho provável nesta quarta-feira (15). A Turquia e o Paquistão atuam para estender o cessar-fogo e manter a mesa de negociação de pé, mas as divergências sobre o programa nuclear iraniano e sobre Ormuz continuam abertas.

Ormuz concentra um dos gargalos mais sensíveis do comércio global de energia. Segundo a Reuters, o estreito costuma carregar cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e gás natural liquefeito, e o mercado ainda não acredita que a nova rodada de conversas baste para normalizar rapidamente a passagem de navios.

Essa desconfiança apareceu no preço. Nesta quinta-feira (16), o barril do Brent subiu 4,7% e fechou a US$ 99,39, enquanto o WTI avançou 3,7%, mesmo com declarações de Donald Trump de que um acordo estaria próximo. Para os operadores, o problema é simples: sem tráfego marítimo normal em Ormuz e com bloqueio dos Estados Unidos a portos iranianos, o risco continua no radar.

Fontes ouvidas pela Reuters disseram que o Irã admite liberar a navegação pelo lado omanense do estreito se houver um memorando capaz de impedir a volta da guerra. Só que, passada mais da metade de uma trégua de duas semanas, seguem sem solução o destino do estoque iraniano de urânio enriquecido, o prazo para limitar o enriquecimento e o cronograma de alívio das sanções.

Para o Brasil, o choque chega pelo diesel. O país importa cerca de 30% do combustível que consome, o que deixa transporte, frete, campo e comida mais expostos quando o Brent dispara e o custo internacional sobe. Em março, entidades do agronegócio já relatavam que a guerra havia levado o barril da faixa de US$ 80 para perto de US$ 100, com pressão direta sobre o interior do país.

A Petrobras afirma que consegue amortecer parte desse repasse porque abandonou em 2023 a política de seguir automaticamente a paridade internacional. Mesmo assim, a estatal reconheceu que guerras e tensões geopolíticas elevam a volatilidade do mercado e podem contaminar os preços domésticos.

O Banco Central já colocou esse risco na conta. No Relatório de Política Monetária de março, a autoridade monetária disse que a alta do petróleo ajudou a elevar as projeções de inflação e reafirmou cautela com os efeitos diretos e indiretos dos conflitos no Oriente Médio sobre os preços ao longo do tempo.

Por isso Ormuz continua sendo a linha mais sensível dessa negociação. Enquanto a passagem de navios não voltar a um padrão estável e o cessar-fogo não virar acordo firme, a guerra seguirá distante no mapa, mas perto demais da bomba de diesel e do carrinho do supermercado.

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