O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT-CE), abriu nesta quinta-feira (16) espaço para uma transição curta no fim da escala 6×1, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia classificado, na terça-feira (14), a chamada “taxa das blusinhas” como desnecessária. No Planalto, os dois movimentos passaram a conversar no mesmo pacote: aliviar o bolso do trabalhador, reduzir o endividamento das famílias e entrar na campanha com agenda de consumo e renda.
Guimarães disse que o governo não aceita compensar a redução da jornada com novas desonerações para empresas, mas admitiu negociar um período de transição, desde que curto. Também afirmou que maio, mês do trabalhador, será usado para dar velocidade política ao tema e que o Planalto já articula reuniões com os presidentes da Câmara e do Senado para definir o caminho da proposta, por projeto de lei ou por proposta de emenda à Constituição.
Na Câmara, o presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) afirmou nesta quarta (15) que há “vontade política” para aprovar o fim da 6×1 e manteve o cronograma para levar o tema ao plenário em maio. Isso indica que o governo tenta surfar uma janela aberta no Congresso, mas ainda precisará costurar ritmo, texto e concessões para evitar que a pauta empurre custo político sem produzir voto.
Do outro lado do pacote está a ferida aberta da taxação sobre compras internacionais de baixo valor. Em entrevista à mídia progressista, na terça, Lula disse que considerava desnecessária a cobrança sobre essas compras, reconheceu o desgaste e admitiu que a medida atingiu justamente consumidores de menor renda, que recorrem a plataformas estrangeiras para comprar itens baratos.
Pelas regras da Receita Federal, compras de até US$ 50 em sites certificados no Programa Remessa Conforme pagam 20% de Imposto de Importação, além de ICMS de 17%, percentual que subiu para 20% em alguns estados desde 1º de abril de 2025. O problema para o Planalto é que mexer nessa cobrança tem apelo popular, mas também afeta arrecadação: o tributo rendeu R$ 5 bilhões no ano passado.
Lula afirmou que o governo prepara um pacote voltado à “economia popular”, com medidas para reduzir dívidas e ampliar a renda das famílias. Guimarães reforçou a mesma linha ao dizer que o governo está preocupado com o endividamento das famílias e com o peso das apostas online, as bets, sobre a renda popular.
Os números ajudam a explicar a pressa. A inadimplência já compromete mais de 27% da renda mensal das famílias brasileiras, com base em dados recentes do Banco Central. Nessa moldura, 6×1 e “taxa das blusinhas” deixam de ser assuntos separados: viram peças de um mesmo pacote eleitoral desenhado para falar com empregado formal, trabalhador do comércio, consumidor de baixa renda e família endividada.
Se conseguir transformar as duas bandeiras em anúncio concreto até maio, Lula entra na campanha falando menos de promessa e mais de bolso.
Entretanto, a taxa de juros continua como a ferida aberta desse enredo. Enquanto o Planalto tenta aliviar o bolso com a discussão sobre a escala 6×1 e o recuo na taxação das compras internacionais, o crédito segue caro, trava o consumo e aperta a vida de quem depende de parcelamento para fechar as contas do mês. Sem mexer nesse bloqueio, qualquer pacote chega ao trabalhador pela metade.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




