Sandro Alex revela contradição da direita no Paraná

O governador Ratinho Junior (PSD) bateu o martelo por Sandro Alex (PSD), mas a escolha abriu uma fissura evidente na direita paranaense. O nome ungido pelo Palácio Iguaçu reafirmou nesta quarta (15) que foi entusiasta da Operação Lava Jato e do então juiz Sergio Moro (PL), hoje adversário direto na corrida de 2026 e líder da disputa pelo governo do Paraná nas pesquisas de intenção de voto.

Ratinho confirmou Sandro na segunda-feira (13), depois de meses de especulação sobre Guto Silva (PSD), Alexandre Curi (Republicanos) e Rafael Greca (MDB). O ex-secretário de Infraestrutura e Logística chega à sucessão carregando justamente a vitrine que o governador mais tenta vender, obras e concessões, sobretudo o novo pacote do pedágio, do qual foi um dos principais formuladores políticos.

A contradição apareceu de forma crua na primeira entrevista de Sandro como pré-candidato. Ele disse que segue entusiasta da Lava Jato e do então juiz Moro, reconheceu manifestações públicas de apoio à operação e ainda admitiu que, dentro do próprio campo, pode haver gente defendendo “Flávio sim e Moro não”. Em português claro: o candidato de Ratinho entrou na pista disputando o mesmo eleitorado ideológico do senador do Partido Liberal, sem conseguir esconder a sobreposição.

Embora tente vestir a fantasia lavajatista, Sandro Alex é visto por interlocutores do morismo como candidato de voo curto. Nos bastidores do campo de Sergio Moro, a avaliação é que o ex-secretário de Infraestrutura, chamado de “Rei do Pedágio”, pode não decolar até agosto e que seu projeto político mais viável estaria em Ponta Grossa, com 2028 no radar.

O pano de fundo eleitoral ajuda a entender o tamanho do aperto. No principal cenário estimulado para governador, Moro aparece com 46,0%, Greca com 19,7%, Requião Filho (PDT) com 17,7% e Guto Silva com 3,6%. Na espontânea, 72,9% ainda não sabem em quem votar e Moro marca 10,7%. Sandro Alex não apareceu nos cenários testados porque a escolha veio depois da coleta.

A Paraná Pesquisas foi registrada sob o nº PR-06559/2026 ouviu 1.500 eleitores em 56 municípios entre 10 e 12 de abril, com margem de erro de 2,6 pontos.

Na Assembleia Legislativa do Paraná, a situação ficou ainda mais reveladora. Após a janela partidária, o PL passou a 12 deputados e o Novo ganhou 2, formando um bloco de 14 parlamentares. Em vez de estrear com ofensiva clara sobre o governo Ratinho, esse grupo entrou em guerra por fala, narrativa e protagonismo no plenário, cobrando falar por último e reivindicando para si o comando do campo oposicionista. A dúvida política ficou exposta: o bloco de Moro quer ser oposição ao Palácio Iguaçu ou apenas oposição aos demais blocos da Casa.

Foi nesse vazio que Requião Filho atacou. Em declaração ao Blog do Esmael, o pedetista desafiou o bloco PL/Novo a retirar o que chamou de “CPIs laranjas” e assinar uma comissão de verdade contra Ratinho Junior. A conta fecha. A Alep tem 54 deputados, uma CPI exige 18 assinaturas, o bloco PL/Novo soma 14 e PT mais PDT reúnem 8 cadeiras. Se esses grupos se juntassem, chegariam a 22 apoios, quatro acima do mínimo regimental. A provocação de Requião é simples: se a direita quer provar que não existe acordo branco entre Moro e Ratinho, basta assinar investigação real contra o governo.

O ponto mais sensível dessa pressão atende pelo nome de pedágio. Sandro Alex virou o herdeiro político de Ratinho justamente por ter sido o homem da infraestrutura e um dos rostos da nova modelagem das concessões rodoviárias. Só que o próprio PSD já vinha apanhando por esse tema. Em 6 de abril, Luiz Claudio Romanelli (PSD) alertou que o free flow já ameaçava cerca de 6 mil usuários e, em 27 de março, disse que a suspensão das multas não podia virar jogada eleitoral. O assunto, portanto, voltou ao centro da sucessão não como detalhe técnico, mas como ponto de desgaste político.

Ratinho resolveu o nome do seu lado, mas não resolveu a contradição da sua área. Escolheu um candidato que fala a língua torta da Lava Jato, disputa o mesmo terreno de Moro e ainda reativa o flanco do pedágio num momento em que o PL/Novo, apesar do tamanho, evita dizer com nitidez se quer investigar o governo ou apenas administrar a própria conveniência. A sucessão do Paraná entrou numa fase em que o problema já não é só quem Ratinho escolheu. É quem, de fato, está disposto a enfrentá-lo.

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