O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o premiê espanhol Pedro Sánchez (PSOE-Espanha) abriram nesta sexta-feira (17), em Barcelona, a 1ª Cúpula Brasil-Espanha e levarão a agenda para sábado (18) com a 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre. No papel, é uma visita de Estado com acordos bilaterais. Na prática, virou uma vitrine internacional do campo progressista contra a ultradireita.
O roteiro oficial mostra a dimensão política do encontro. A cúpula bilateral em Barcelona reúne Lula, Sánchez e ministros dos dois países para assinar atos em áreas como ciência, inovação, saúde, cultura, igualdade de gênero, serviços aéreos, micro e pequenas empresas e combate ao tráfico de pessoas. A agenda inclui ainda reunião com empresários e jantar com líderes convidados para o fórum de sábado (18).
Mas o gancho mais forte não está no protocolo nem no comércio. Está no palco que Lula e Sánchez decidiram montar. O Fórum Democracia Sempre foi lançado em 2024 para fortalecer a coordenação internacional em defesa da democracia, e a edição de Barcelona ocorre no momento em que a extrema direita pressiona governos, redes e eleições em vários países.
A própria cobertura europeia tratou Barcelona como base de um novo frente progressista. A RTVE informou que Sánchez quer usar as cúpulas de 17 e 18 de abril para fazer contraponto à “crescente onda da ultradireita”, enquanto a Reuters registrou que os encontros buscam defender o multilateralismo e mobilizar forças de esquerda diante do avanço da extrema direita.
É aí que Lula entra em campo com peso político maior que o de uma viagem diplomática comum. O presidente brasileiro chega à Espanha como um dos poucos líderes do Sul Global ainda capazes de falar em democracia, combate à desigualdade e coordenação internacional sem soar isolado. A presença dele ao lado de Sánchez, Claudia Sheinbaum, Cyril Ramaphosa, Gustavo Petro e António Costa empurra Barcelona para o centro de uma disputa global de narrativa.
A cidade catalã, portanto, vira mais que sede de encontro bilateral. Vira cenário de reação política. O encontro progressista paralelo espera cerca de 3 mil participantes, entre chefes de governo, prefeitos, sindicatos, ativistas e partidos, num esforço para mostrar que existe alternativa organizada à direita radical.
Do lado brasileiro, o Planalto tenta amarrar duas linhas ao mesmo tempo. Uma é econômica: Espanha e Brasil mantêm parceria estratégica desde 2003, com comércio bilateral de US$ 12,6 bilhões e estoque espanhol de cerca de US$ 50 bilhões no Brasil. A outra é política: projetar Lula como ator internacional num momento em que o acordo Mercosul-União Europeia entra na reta de vigência provisória e em que a defesa da democracia voltou a ser bandeira concreta, não frase de cerimônia.
Lula também tratou de delimitar o campo da reunião. O presidente disse ao jornal espanhol El País que o encontro não deve ser lido como uma reunião “anti-Trump”, mas como uma tentativa de entender o que falhou e o que precisa ser reparado na democracia. A frase importa porque mostra a operação política em curso: menos ataque pessoal, mais disputa de modelo.
Sánchez joga no mesmo terreno. Depois de endurecer o discurso contra a guerra e contra a pressão externa dos Estados Unidos, o premiê espanhol tenta transformar Barcelona em polo visível de articulação progressista. A diferença é que, desta vez, ele não está sozinho. Com Lula ao lado, a Espanha deixa de sediar apenas uma cúpula e passa a exibir um bloco político em formação.
Para o Blog do Esmael, esse é o ponto central. Barcelona não virou notícia só porque recebeu uma reunião entre Brasil e Espanha. Virou notícia porque Lula e Sánchez decidiram usar a cidade como vitrine internacional contra a extrema direita, num momento em que a democracia voltou a exigir voz, coordenação e palco.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




