O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos (PSOL-SP), foi à GloboNews nesta sexta-feira (17) para defender o projeto do governo Lula contra a escala 6×1, mas a entrevista saiu do trilho quando o debate migrou do mundo do trabalho para FGTS, dívida e juros. O confronto veio na esteira do envio, pelo Planalto, do projeto com urgência constitucional ao Congresso na terça-feira (14), com redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, dois dias de descanso remunerado e proibição de corte salarial.
No estúdio do Estúdio i, o tom subiu com a entrada do jornalista Demétrio Magnoli. Primeiro, veio a ironia sobre o agasalho vermelho de Boulos. “Folgo em vê-lo forte, vermelho e sacudido”, disse o jornalista, em alusão ao agasalho vermelho que o ministro usava na entrevista.
Depois, o ponto que incendiou a conversa: a hipótese de uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para aliviar dívidas. Boulos rebateu que o centro do problema está nos juros altos cobrados no país. Magnoli respondeu que não entraria em debate sobre juros com o ministro.
A pergunta de Magnoli não caiu do nada. Em 7 de abril, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que a equipe econômica avalia permitir o uso do FGTS para quitar dívidas dentro de um pacote voltado ao superendividamento. O próprio governo diz que o formato ainda está em discussão com o Ministério do Trabalho e Emprego.
Esse terreno já está contaminado por outra frente do Planalto. No programa Crédito do Trabalhador, o governo permite que o empregado use até 10% do saldo do FGTS ou até 100% da multa rescisória como garantia do consignado privado. A aposta oficial é baixar juros e trocar dívida cara por dívida mais barata. Foi justamente esse ponto, a fronteira entre socorro ao trabalhador e proteção ao sistema financeiro, que explodiu no estúdio.
No tema principal da entrevista, Boulos manteve a linha do Planalto. O governo diz esperar aprovação da proposta em até 90 dias e sustenta que o texto consolida o modelo 5×2, preserva salário e ataca uma jornada que o próprio ministro chama de “desumana”. O governo Lula afirma que a mudança alcança uma realidade em que 37,2 milhões de pessoas trabalham mais de 40 horas por semana e cerca de 14 milhões ainda estão submetidas à escala 6×1.
Foi esse o ponto de ruptura na GloboNews. Boulos tentava vender a pauta como reparação de tempo para quem vive exausto. Magnoli puxou o debate para a engrenagem do crédito, do FGTS e dos juros. Um falava de jornada. O outro, de dinheiro. O resultado foi televisão quente, com um conflito que o Congresso terá de resolver fora do estúdio.
A cena escancarou o tamanho da disputa. O governo quer colar o fim da 6×1 à ideia de dignidade no trabalho. A resistência tenta deslocar o foco para o custo econômico da operação e para o risco de o trabalhador entrar no debate só como tomador de crédito. Essa briga está apenas começando.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




