O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) viu subir a tensão com os Estados Unidos depois que Washington manteve o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) no radar do terrorismo, enquanto o governo brasileiro recusou esse enquadramento e escolheu outra trilha: cooperação policial e aduaneira, troca de inteligência e ataque ao dinheiro das facções. O conflito deixou de ser só de segurança pública e virou disputa de soberania, narrativa internacional e munição eleitoral.
A fricção não nasceu agora. Há um ano, o Departamento de Estado dos EUA pediu ao Brasil para classificar PCC e CV como organizações terroristas. A resposta brasileira foi direta: o secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, afirmou que o país trata essas estruturas como organizações criminosas infiltradas na sociedade, não como terrorismo nos termos da lei brasileira. Na mesma reunião, os americanos disseram que o rótulo ajudaria a ampliar sanções, mobilizar recursos e atingir cadeias de suprimento do crime.
Em janeiro do ano passado, a Casa Branca editou uma ordem para abrir o processo de enquadramento de cartéis e outras organizações como Organizações Terroristas Estrangeiras, a lista de terrorismo do governo dos EUA, ou como alvos globais de sanções por terrorismo. Em português claro, isso dá a Washington instrumentos mais duros para bloquear ativos, ampliar punições financeiras e empurrar sua política de segurança para dentro de outros países.
Brasília decidiu responder com outro cardápio. Na semana passada, o Ministério da Fazenda anunciou a “Ação Brasil-EUA contra o crime organizado”, uma cooperação entre a Receita Federal e a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP), a aduana americana, para rastrear armas, drogas e cargas suspeitas em tempo real. O acordo criou o Projeto MIT e incluiu o programa DESARMA, sistema voltado ao rastreamento internacional de armas e materiais sensíveis.
Esse detalhe muda o eixo do debate. O governo Lula aceita cooperação operacional com os EUA, mas resiste ao salto político de chamar facção de terrorista. A diferença é grande. Na prática, o Planalto tenta manter o combate ao crime no terreno da polícia, da aduana e das finanças, enquanto Washington quer puxar o tema para a doutrina antiterror.
Washington já tinha ferramentas para agir sem esse novo rótulo. O Tesouro dos EUA informou em março de 2024 que o PCC já havia sido sancionado sob autoridade de combate ao narcotráfico desde 2021 e anunciou nova punição contra o operador Diego Macedo Gonçalves do Carmo, acusado de lavar centenas de milhões de dólares para a facção. Ou seja, o salto agora não é apenas policial. É diplomático e eleitoral.
A eleição brasileira entrou no meio do caminho. Também neste mês, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara aprovou um projeto que classifica PCC e CV como grupos terroristas, ao lado de cartéis latino-americanos. O texto é relatado pelo deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP) e ainda precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, além do plenário da Câmara e do Senado para virar lei.
Isso explica por que o tema explodiu nas redes sociais e no clipping político. A pauta serve à direita para empurrar segurança pública ao centro da campanha com linguagem de guerra, enquanto o governo tenta vender resultado concreto sem entregar a moldura política a Washington. A própria Reuters registrou, em 10 de abril, que a segurança virou tema-chave na disputa presidencial e que o acordo com os EUA foi anunciado num momento de pressão eleitoral sobre Lula.
No fundo, o atrito é este: os Estados Unidos querem ampliar seu raio de ação sobre facções brasileiras com a etiqueta do terrorismo; o Brasil quer cooperação, mas sem abrir brecha para tutela externa nem importar uma doutrina que mistura crime organizado, geopolítica e campanha. Quando Washington sobe o tom sobre PCC e CV, não mexe apenas com polícia. Mexe com a soberania brasileira e com a eleição de 2026.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




