A engenheira curitibana Priscila Andrade, conhecida como Prysky, formada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), oficializou a candidatura à presidência do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Santa Catarina (CREA-SC) e levou ao centro da disputa um fato que o sistema empurrou por décadas para a margem: ela é a primeira mulher a disputar o cargo no estado. O calendário oficial das eleições do Sistema Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea)/Crea marcou a votação para o próximo dia 3 de julho.
A disputa é catarinense, mas o caso passa da divisa. Quando uma profissional nascida em Curitiba e formada numa universidade pública paranaense rompe essa barreira em Santa Catarina, o efeito político e institucional interessa ao país inteiro, porque expõe o atraso de estruturas ainda fechadas para mulheres nos espaços de comando.
Os números ajudam a medir o tamanho da barreira. Dados do Sistema Confea/Crea mostram 1,2 milhão de profissionais com registro ativo nas áreas da engenharia, dos quais 242.034 são mulheres, 20,2% do total. Ao mesmo tempo, o próprio Confea informa que mais de 60% dos cargos de liderança no conselho federal já são ocupados por mulheres, sinal de que a pressão por espaço cresceu, mas ainda não virou regra em toda a base do sistema.
Em entrevista ao Blog do Esmael, Prysky defendeu renovação dos quadros do CREA-SC e mirou um ponto sensível que muita entidade prefere contornar: a uberização dos profissionais. Em português claro, ela fala da transformação de engenheiros e técnicos em prestadores cada vez mais pressionados, com menos proteção, menos poder de negociação e mais precarização.
A candidata sustenta que o conselho perdeu tempo diante dessa mudança no mundo do trabalho. Para ela, resgatar o orgulho das profissões passa por recolocar a autarquia federal em sua função original, fiscalizar, valorizar o exercício técnico e defender a sociedade, porque o sistema só faz sentido quando protege o interesse público e não apenas a própria burocracia.
A trajetória apresentada por Prysky ajuda a explicar o peso político dessa candidatura. Ela atua há mais de duas décadas no setor da construção, com passagem por multinacionais, experiência no Brasil e no exterior, inclusive na África do Sul, além de reconhecimento no segmento de esquadrias de PVC e atuação atual em Florianópolis no mercado de alto padrão.
Santa Catarina já teve mulher no comando interino do conselho. No início deste mês, a vice-presidente Fernanda Maria Felix Vanhoni assumiu a presidência em exercício durante licença de Carlos Alberto Kita Xavier. A diferença agora é outra: a candidatura de Prysky empurra a possibilidade de uma mulher chegar ao posto principal pelo voto, num ambiente em que esse degrau ainda foi negado.
Em um de seus primeiros movimentos de campanha, neste sábado (18), Priscila Andrade, a Prysky, desafiou o candidato à presidência do CREA-SC, Felipe Penter, para um debate público sobre propostas. Penter tentará voltar ao cargo, numa disputa que, segundo apuração do Blog do Esmael, reúne apenas as duas candidaturas registradas em Santa Catarina.
O recado vai além do CREA-SC. Conselho profissional que ignora desigualdade de gênero, misoginia e fechamento de oportunidades ajuda a conservar o mesmo mundo estreito que a política brasileira diz querer superar. Se a engenharia quer falar em futuro, inovação e interesse social, precisa começar abrindo a porta do comando para quem sempre ficou do lado de fora.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




