17 de agosto de 2015
por esmael
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Coluna do Luiz Cláudio Romanelli: O legado da democracia

Luiz Claudio Romanelli*

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A primeira faixa que vi da manifestação deste domingo, 16 de agosto, em Curitiba, me deixou perplexo: “intervenção militar já!”

O dia foi marcado por manifestações de apologia ao golpe contra a democracia, nas principais cidades do Brasil. Um movimento, diga-se, articulado por grupos de direita, que se comunicam pelas redes sociais na internet, e velhas raposas da política que desejam um terceiro turno da eleição de 2014. Nunca é demais lembrar as palavras do filósofo e escritor Umberto Eco: “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

Muito embora havia entre os manifestantes, cidadãos conscientes protestando contra a corrupção, contra à deterioração da economia e os cortes em direitos trabalhistas e sociais, m‎uitos foram as ruas, qual boiada desgovernada, para vociferar contra a presidente Dilma, o ex-presidente Lula, o PT, os partidos políticos, os políticos em geral, contra a própria democracia. O que mais se viu foram discursos autoritários e anticonstitucionais, discursos de ódio, que põem em jogo a ainda incipiente democracia brasileira.

Defendo o direito a livre manifestação, mas não compactuo com os que bradam pelo impeachment da presidente legitimamente eleita por mais de 54 milhões de eleitores, numa eleição acirrada, já com a Operação Lava Jato protagonizando o debate. ‎

‎Dias desses, li um texto muito bom de autoria do jornalista paranaense Otavio Duarte, no qual ele faz uma analise precisa e inteligente sobre o nosso país e lembra que “é bom ter distanciamento, perspectiva, e um pouco de história não faz mal a ninguém”, para concluir que embora ainda haja muito a fazer, “o Brasil hoje é muito melhor do que antes”.

Quem, como eu, viveu e combateu a ditadura, sabe bem que a melhoria na vida dos brasileiros é o grande legado da democracia.

Nos últimos 30 anos, entre erros e acertos, o Brasil implantou políticas públicas que transformaram o país. De uma Nação atrasada e pobre, nos tornamos um país admirado e respeitado mundialmente, com muitos desafios ainda à enfrentar, mas num outro patamar.

Sarney viabilizou e consolidou a transição democrática, Collor (apesar de todos os pesares) abriu o país ao mercado internacional. Itamar Franco estancou a inflação com a criação do Real, Fernando Henrique Cardoso criou as bases da estabilização econômica, regulamentou e implantou várias políticas sociais que estavam previstas na Constituição de 1988 – a carta que inaugurou a moderna democracia brasileira.

A Constituição trouxe inovações que hoje parecem triviais. Durante mais de 150 anos, os analfabetos – outrora um número expressivo da população – estiveram excluídos da vida política. Pois a Constituição garantiu a eles o direito ao voto, assim como aos jovens entre 16 e 18 anos. Também concedeu a todo cidadão o direito de saber todas as informações sobre ele próprio e sobre o governo.

Depois da Constituição, foram elaborados nos anos seguintes um novo Código Civil, o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Estatuto do Idoso. O racismo passou a ser considerado crime inafiançável. Há ainda um capítulo inovador sobre meio ambiente e uma legislação sobre a questão indígena que, se não evita conflitos pontuais, pelo menos protege a minoria.

Garantiu ainda verbas à educação e permitiu a universalização do ensino. Criou o Sistema Único de Saúde, que se não é o ideal garante o acesso de todos.

Nos oito anos do governo Lula, o Brasil cresceu economicamente e reduziu drasticamente as desigualdades sociais. A taxa de desemprego das principais regiões metropolitanas, que em 2002 beirava os 12%, praticamente caiu à metade em 20