A Petrobras voltou a produzir ureia na Araucária Nitrogenados S.A. (Ansa), em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, nesta quinta-feira (30), depois de seis anos sem fabricar o insumo usado no campo. A fábrica paranaense reabre no mesmo momento em que a guerra no Oriente Médio pressiona fertilizantes, energia e comida.
A retomada da Ansa é notícia de Paraná, mas o alcance é nacional.
Ureia não é palavra distante da vida do brasileiro. É fertilizante nitrogenado, usado para aumentar a produtividade agrícola. Quando falta ou encarece, a conta pode chegar ao preço dos alimentos.
A unidade estava hibernada desde 2020. Para voltar a operar, recebeu cerca de R$ 870 milhões em investimentos, com manutenção, inspeções técnicas, testes operacionais, recomposição de equipes e contratação de serviços.
Segundo a Petrobras, a mobilização gerou mais de 2 mil empregos na preparação da fábrica. A operação regular deve manter cerca de 700 postos de trabalho diretos.
A Ansa tem capacidade para produzir 720 mil toneladas de ureia por ano, o equivalente a cerca de 8% do mercado nacional. Também pode produzir 475 mil toneladas anuais de amônia e 450 mil metros cúbicos de Agente Redutor Líquido Automotivo (Arla 32), usado para reduzir emissões em veículos a diesel.
O dado desmonta a velha conversa de que indústria estratégica pode ser tratada como ferro velho contábil.
Quando o Brasil fecha fábrica de fertilizante, não economiza. Ele terceiriza a própria comida ao dólar, à guerra, ao frete marítimo e à boa vontade de fornecedores externos.
O país importa cerca de 80% dos fertilizantes que consome. A Petrobras afirma que, nos últimos anos, essa dependência passou de 85% no uso do campo.
Em fertilizantes nitrogenados, a vulnerabilidade é ainda mais dura. Audiência pública na Câmara dos Deputados registrou que a dependência brasileira passou de 75% em 2015 para 96% no período recente, justamente depois da paralisação de unidades nacionais.
A guerra no Oriente Médio tornou essa escolha mais cara.
Levantamento apontou alta de cerca de 63% nos preços da ureia no país desde o início do conflito. Outros nitrogenados também subiram, pressionando o custo da safra.
É aí que a fábrica de Araucária deixa de ser apenas uma pauta industrial.
A Ansa fala com o produtor rural, com o caminhoneiro, com o trabalhador do mercado e com a família que sente a comida subir no carrinho.
A Petrobras informou que a retomada da Ansa se soma às unidades de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia (Fafen-BA), reativada em janeiro de 2026, e de Sergipe (Fafen-SE), reativada em dezembro de 2025. Com as três, a estatal estima chegar a cerca de 20% do mercado interno de ureia.
A empresa também trabalha na Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-III), em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul, com previsão de operação comercial em 2029. Com essa planta, a Petrobras projeta atender cerca de 35% do mercado nacional de ureia.
O contraste é direto.
De um lado, o país que desmonta fábrica, entrega cadeia produtiva e chama dependência de eficiência. De outro, o país que produz insumo básico, segura empregos e reduz a exposição do prato do brasileiro ao conflito internacional.
No Paraná, a fábrica fica ao lado da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária. Essa integração industrial mostra o que o Brasil perde quando separa energia, indústria e agricultura como se fossem gavetas sem comunicação.
A reabertura da Ansa não resolve sozinha a dependência externa. O próprio tamanho do buraco mostra que a retomada precisa ser tratada como política de Estado, não como peça de propaganda.
Mas a primeira produção de ureia depois de seis anos muda o sinal político.
O Paraná volta ao mapa da indústria de fertilizantes. A Petrobras volta a disputar uma cadeia estratégica. E o Brasil ganha margem para não ajoelhar sempre que guerra, dólar e importação batem na porta da lavoura.
Soberania começa antes da prateleira do supermercado. Começa na fábrica que produz o insumo que ajuda a plantar.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




