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Ormuz pressiona o diesel e ameaça o bolso brasileiro

O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã entrou em risco nesta segunda-feira (20) depois que a Marinha americana apreendeu um cargueiro iraniano na região do Estreito de Ormuz, Teerã prometeu retaliar e recuou das novas conversas de paz. O mercado entendeu o recado na hora: o barril do Brent subiu mais de 6%, com medo de novo estrangulamento na principal rota do petróleo mundial.

Ormuz voltou ao centro da crise porque ali passa muito mais que navio. Em 2024 e no primeiro trimestre de 2025, o estreito respondeu por mais de um quarto do comércio marítimo global de petróleo e por cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo e derivados. Também concentrou cerca de um quinto do comércio global de gás natural liquefeito.

A trégua já vinha cambaleando desde sexta-feira (17). A Reuters informou que, menos de 24 horas depois do anúncio de reabertura da passagem, navios voltaram a relatar ataques, o fluxo seguiu travado e analistas passaram a falar em viagens mais longas, frete mais caro e seguro marítimo mais pesado. No início de março, o prêmio de guerra para petroleiros já havia disparado no mercado internacional, saindo de algo perto de 0,25% para 3% do valor do casco em alguns casos.

Para o Brasil, a dor maior atende pelo nome de diesel. Cerca de 25% do diesel consumido no país ainda depende de importação, mesmo com a Petrobras operando refinarias perto de 97% da capacidade e com o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tendo zerado tributos federais sobre o combustível em março para segurar o repasse ao consumidor.

Esse choque não para na bomba. O Brasil ainda move 65% das cargas por rodovia, segundo o planejamento logístico federal, e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) registra que o diesel é o combustível de maior demanda energética do país, essencial ao transporte de mercadorias e ao abastecimento de cadeias-chave, como o agronegócio. Quando Ormuz trava, o caminhão brasileiro sente antes de a prateleira acusar.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já mostrou esse caminho em março. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 0,88%, e transporte e alimentos responderam por 76% do resultado; gasolina, passagens aéreas e diesel somaram mais de 30% da inflação do mês. O próprio IBGE ligou a alta dos alimentos em casa ao frete mais caro, puxado por combustíveis mais altos e pela incerteza internacional.

Traduzindo sem economês: guerra lá fora vira custo de vida aqui dentro. Se a crise em Ormuz piorar de novo, o caminho mais provável para o bolso do brasileiro passa por diesel pressionado, frete rodoviário mais caro e nova tensão sobre a inflação de alimentos e serviços, justamente no momento em que o Planalto tenta impedir que o choque externo contamine a renda das famílias. Essa leitura decorre do peso de Ormuz na energia mundial, da dependência brasileira do diesel e da composição recente da inflação medida pelo IBGE.

Ormuz voltou ao centro da crise porque concentra barril, navio, seguro e chantagem geopolítica no mesmo funil. No Brasil, esse funil costuma terminar no preço do diesel, no frete do caminhão e na conta do supermercado.

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