O vice-prefeito de Curitiba, Paulo Martins (Novo), confirmou que vai disputar uma vaga de deputado federal em 2026, movimento que devolve o ex-parlamentar à corrida pela Câmara e abre uma fissura na chapa municipal eleita em 2024. Se vencer e tomar posse em Brasília, Martins terá de deixar a vice-prefeitura; nesse caso, a linha sucessória de Curitiba passa a depender diretamente da Câmara Municipal em eventual ausência do prefeito Eduardo Pimentel (PSD).
Martins fez o anúncio no GERAR Play Podcast. A fala foi publicada pela própria GERAR, em texto nesta quarta-feira (29).
“Eu acredito que esse país precisa de uma reforma legal muito ampla, e por isso eu decidi que eu quero voltar ao parlamento, ao Congresso Nacional, pra trabalhar pelo que eu acredito que é necessário fazer”, afirmou o vice-prefeito.
A frase entrega o cálculo político.
Martins diz ter compromisso com Curitiba, mas argumenta que os problemas que encontrou no Executivo municipal dependem de mudança na legislação federal. Em linguagem direta: ele quer usar a experiência na Prefeitura como trampolim para voltar ao Congresso.
“Eu não posso ter esse diagnóstico que eu tenho, inclusive com experiência de campo, como executivo municipal, e ficar aqui no município só gritando sem ter condição de resolver”, disse.
O discurso busca blindar a saída. Martins tenta apresentar a candidatura como consequência da passagem pela Prefeitura, não como abandono do cargo.
Mas o efeito prático é incontornável.
O vice-prefeito foi eleito em 2024 na chapa de Eduardo Pimentel. Se conquistar mandato de deputado federal e assumir a cadeira em Brasília, não poderá acumular o cargo municipal com o mandato parlamentar.
Há ainda um detalhe jurídico importante.
O vice-prefeito pode disputar outro cargo sem renunciar antes da eleição, desde que não substitua nem suceda o prefeito nos seis meses anteriores ao pleito. Essa é a regra prevista na Lei Complementar nº 64/1990 e consolidada pela Justiça Eleitoral.
Ou seja, Martins pode fazer campanha sendo vice-prefeito.
O problema aparece depois.
Se eleito e empossado deputado federal, terá de se afastar da vice-prefeitura. A vaga de vice não é simplesmente “ocupada” pelo presidente da Câmara Municipal. O que ocorre é diferente: se prefeito e vice estiverem ausentes, impedidos ou se houver vacância simultânea, a chefia do Executivo passa ao presidente da Câmara, conforme a linha sucessória municipal.
Curitiba já teve uma amostra recente desse mecanismo. Entre 11 e 15 de abril de 2026, o vereador Leonidas Dias (Podemos) assumiu interinamente a Prefeitura porque o prefeito Eduardo Pimentel, o vice Paulo Martins e o presidente da Câmara, Tico Kuzma (PSD), estavam fora do país em agendas oficiais.
Na prática, a candidatura de Martins recoloca a Câmara Municipal no centro da sucessão curitibana.
O movimento também reorganiza o campo da direita no Paraná.
Martins chegou a ser lançado pelo Partido Novo como pré-candidato ao governo do Paraná em 2025. Com a filiação do senador Sergio Moro ao PL, o Novo passou a apoiar a pré-candidatura de Moro ao Palácio Iguaçu, e Martins recuou para a disputa federal.
É uma descida de degrau, mas com lógica eleitoral.
Em vez de enfrentar uma disputa majoritária dura, Martins volta ao terreno proporcional, onde já teve mandato, base ideológica e recall junto ao eleitorado conservador de Curitiba.
Na entrevista, ele afirmou que será “um parlamentar muito melhor” do que foi no primeiro mandato. A frase tenta transformar retorno em correção de rota.
O ponto frágil é outro.
Curitiba elegeu uma chapa para quatro anos. A decisão de Martins mostra que a vice-prefeitura virou etapa de travessia para 2026, não destino político final.
Para Eduardo Pimentel, isso reduz a estabilidade simbólica da gestão. Para a Câmara Municipal, aumenta o peso institucional do presidente de plantão. Para Martins, a eleição federal será o teste real de sua força fora da sombra da Prefeitura.
A pré-candidatura de Paulo Martins expõe uma troca de prioridade: Curitiba fica como vitrine, Brasília volta a ser o alvo.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




