O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa abriu uma crise na Democracia Cristã (DC) ao se filiar à legenda e aparecer como possível pré-candidato à Presidência da República, movimento que colocou em choque a direção nacional do partido, o ex-ministro Aldo Rebelo (DC) e o diretório paulista comandado por Cândido Vaccarezza.
A crise estourou neste sábado (16), depois que a Folha informou que Barbosa entrou no DC em 2 de abril, a poucos dias do fim do prazo legal de filiação para quem pretende disputar a eleição de 2026. O partido, presidido nacionalmente por João Caldas, passou a tratar o ex-ministro como nome presidencial.
A reação veio de dentro. Vaccarezza, presidente do diretório paulista do DC, chamou Barbosa de “inapoiável” e disse que vai trabalhar contra a candidatura dele ao Palácio do Planalto. A acusação política do dirigente é pesada: ele atribui a Barbosa o início do chamado “lawfare” no Brasil, termo usado para descrever o uso do sistema de Justiça como arma de disputa política.
Aldo Rebelo também não entregou o lugar. Em nota divulgada neste sábado (16), o ex-ministro afirmou que sua pré-candidatura está mantida “conforme convite e compromisso” da direção nacional do DC. Ele classificou a candidatura de Barbosa como “balão de ensaio” e disse que a movimentação afronta relações políticas baseadas em transparência e decisão democrática.
A nota de Aldo não é só defesa pessoal. Ela registra uma disputa sobre quem tem o direito de falar pelo partido. Para ele, a pré-candidatura presidencial não pode ser trocada por decisão de cúpula sem negociação com quem vinha carregando o projeto pelo país.
Do outro lado, João Caldas dá sinais de que não pretende recuar. Segundo a Folha, o presidente nacional do DC afirmou que quem for contra a candidatura de Barbosa “está fora”, frase que transforma uma divergência eleitoral em ameaça interna de expulsão política.
O DC tenta vender Barbosa como rosto de uma pauta de ética e reformas no Judiciário, no rastro da comoção provocada pelo caso Master, segundo a apuração do Painel. A operação tem lógica eleitoral: buscar um nome conhecido, com biografia no STF e distância formal dos partidos grandes, para ocupar o espaço de eleitor que rejeita Lula e desconfia da direita bolsonarista.
O problema é que Barbosa não chega a um partido vazio. Aldo Rebelo já vinha sendo apresentado pela própria DC como pré-candidato presidencial desde janeiro, com lançamento público e participação da direção nacional da legenda. O site oficial do partido registrou o ato como “pontapé inicial” para 2026.
O filme tem reprise. Em 2014, Barbosa se filiou ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) e alimentou especulações sobre uma candidatura presidencial. Um mês depois, anunciou que não disputaria o Palácio do Planalto, encerrando a operação antes da campanha.
A diferença é que, em 2026, a entrada de Barbosa não mexe apenas com expectativa externa. Ela rachou a legenda antes da convenção. Vaccarezza afirmou que vai reunir aliados de vários estados a partir de segunda-feira (18) para impedir a candidatura do ex-ministro do STF.
A convenção partidária será o teste real. É nesse momento que a legenda formaliza candidatura, define coligação e mede se a direção nacional controla a máquina ou se a resistência de Aldo tem força nos diretórios estaduais. Até lá, Barbosa é pré-candidato possível; Aldo é pré-candidato declarado; e o DC virou palco de uma briga que pode consumir o próprio tempo eleitoral.
Para a eleição de 2026, o racha tem consequência direta: a legenda que tentava entrar no debate presidencial com discurso de ordem, ética e institucionalidade passou a disputar primeiro a própria porta de entrada. Barbosa traz lembrança nacional do mensalão e do STF; Aldo traz rede política, trajetória no Congresso e resistência interna à substituição.
A crise no DC mostra que candidatura de laboratório só vira campanha quando atravessa partido, convenção e palanque. Barbosa chegou com nome conhecido, mas Aldo avisou que não sai de cena por bilhete de cúpula.
Barbosa entrou no DC como balão de ensaio para fisgar o eleitor independente no rastro do BolsoMaster. A aposta de bastidor é simples: embaralhar o primeiro turno antes que Lula (PT) transforme a fragmentação da direita em caminho curto para a vitória no primeiro turno.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




