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Coluna do Rafael Greca: Não existe área calma onde ronca a motosserra

greca

Em sua coluna nesta quarta-feira, Rafael Greca (PMN) fala da área calma e do corte de árvores no centro de Curitiba, dando lugar aos radares. Segundo ele, “não existe área calma onde ronca a motosserra”. Greca também comenta o episódio da campanha publicitária dos deficientes feita pela prefeitura, como um brincadeira de mau gosto que gera ódio. O ex-prefeito lembra ainda de outros desacertos na atual administração municipal como a desintegração do transporte coletivo, abertura de ruas onde há parques, etc. Leia, ouça, comente e compartilhe.

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Rafael Greca*

Três imagens recentes traduzem bem a desorientação do atual prefeito de Curitiba.

A primeira, o massacre das magnólias da Inácio Lustoza, derrubadas cruelmente pela prefeitura.

A segunda, o outdoor-pegadinha dos deficientes, narcisismo da infrutífera gestão publicitária municipal — que chamou mais atenção para a campanha que para o problema, feriu o CONAR, recebeu nota negativa da OAB-PR e foi rejeitado, como “brincadeira de mau gosto”, pelas sérias entidades que lutam com o devido respeito e cuidado pela inclusão dos nossos irmãos deficientes.

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E a terceira, a mal ensaiada jogada de rompimento do prefeito com o queimado PT na véspera da eleição, para escapar da ira de uma Cidade capital da Lava-Jato.

Sobre a primeira, disse o seguinte: não existe área calma onde ronca a motosserra. Foi o pensamento que saltou-me diante da cena terrível das perfumadas magnólias massacradas na rua onde fui menino, rua da casas de meus pais e meus avós,a rua Inácio Lustoza.

A troca do perfume de magnólias centenária pelos abusivos radares Consilux — máquinas mortas da indústria da multa, metálicas, sem folhas, sem perfume, sem viva natureza — desencadeou na consciência curitibana uma revolta e um processo de reflexão: a que ponto chegamos?

Que inconsciência é esta que desadministra Curitiba, capital que consagrou a área verde como princípio urbano?

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Que tipo de gente corta árvores centenárias e tenta passar o sermão de valorização da vida? Que tipo de gente reza missa para os 40 km/h e em seguida acende vela para o barulho acima de 80 decibeis das motaserras? Gente inconsciente.

Cortar magnólias para plantar radares é o mesmo que promover a cada vez mais decadente mentalidade contra “os direitos dos deficientes”.

Assim como não se deve dar lembrança à mentalidade contra os deficientes, também não se deve afirmar que as magnólias foram cortadas porque estavam doentes.

Diante da crueza contra as magnólias, Sônia Gutierrez postou, nas redes sociais, um texto de 2002 do contista Dalton Trevisan, mestre da síntese, orgulho curitibano: “A rua Inácio Lustoza, essa, trescala a magnólias de gordas flores alvíssimas, que, com a garoa, mais forte penetram as janelas e varandas abertas”.

E veja que o prefeito serrou as magnólias na mesma semana que em Paris, na Conferência Mundial sobre o Clima, 200 chefes de estado, além de ambientalistas e técnicos do mundo inteiro, preocupados com o aquecimento global, esforçam-se em responder a pergunta: o mundo melhora ou piora com menos árvores e mais tecnologia?

Curitiba melhorou ou piorou agora sem as magnólias da rua Inácio Lustoza?

Curitiba melhorou ou piorou com esta prefeitura que teima em substituir o vivo e o orgânico pelo metálico e mecânico? Que prefere trocar o poético e o benéfico pelo lucro da Consilux e da Urbs?

Piorou. Está pior e piorando.

Ontem, na Câmara Municipal, o vereador líder do prefeito, Salamuni, do Partido Verde, ainda cometeu o disparate de xingar os que reclamaram do corte das magnólias.

Disse que quem reclamou não sabe o que diz, só ele sabe.

Disse que quem defendeu o perfume das magnólias estaria ignorando os “laudos” de “engenheiros florestais” que teriam atestado que “aquelas árvores estariam doentes”.

A coincidência é que tenham adoecido apenas – exatamente – aonde a Consilux e a Prefeitura precisavam plantar os seus radares. E a visão dos troncos serrados não mostra indícios de podridão alguma, a não ser a má intenção oficial.

fruetbDe fato, tudo adoece nesta desadministração.

Adoecem até as árvores. Nunca se viu tanta árvore doente em Curitiba como agora…

Estava doente a saudável Araucária que a Prefeitura deixou abater no pátio do Laboratório Frichman’s Aisengart, no Batel, exatamente no dia de Curitiba, 29 de março passado.

Estavam doentes várias Araucárias que tombaram nos empreendimentos imobiliários do Mossunguê e Campo Comprido, uma “Ecoville” de “araque”, agora “Ecoville fake”.

Ora, doente mesmo estão os cabeças dessa desastrada administração.

Revolta-se com razão o curitibano contra o corte das corticeiras, sadias e colossais, da rua Iapó, perto da PUC, derrubadas para instalação de um linhão da Copel, que poderia ter atravessado a rua, ou mudado de trajeto, tivéssemos Prefeitura e gestão eficiente e ecológica.

Mobiliza-se com razão a população contra a abertura de uma rua que pode vir a cortar o remanescente do bosque nativo do Parque Gomn, atrás do Shopping Pátio Batel. Quando vai sair o laudo de “doença” das árvores que ali vão morrer? Em 2017, na hora do financiamento, ou logo após a eleição de 2016?

Fruet que se gabava de estar pronto, só aprontou.

Aprontou desintegrando o transporte coletivo metropolitano, destruindo a eficiência de um sistema de transporte imitado nos quatro cantos do mundo, que já nos valeu o Prêmio Mundial do Habitat 1996.

Aprontou trazendo os defeitos do PT para dentro da Prefeitura de Curitiba, sem receber as prometidas verbas federais que o elegeram e que compensariam regiamente a sua contradição. E veja, não fomos atrás das denúncias da Lava Jato.

Ontem Fruet e o PT ensaiaram e anunciaram férias conjugais, a dolce vita com separação de corpos. E nos atos falhos típicos dos narcisistas, garantiram que as escovas de dentes vão continuar juntinhas, pois o anúncio foi feito na base da arrogante promessa de apoio mútuo em um assegurado 2º turno e da continuação dos cargos do PT na prefeitura no caso da reeleição.

Fruet aprontou e quer continuar aprontando, com este investimento contra árvores indefesas. São tantos os tocos de árvores drásticamente podadas e arrancadas que já há quem tenha coragem de perguntar: teria voltado a firma Derosso que criou verdadeira indústria do corte e da poda, para lucrar com matéria orgânica vendida a peso na época do Ducci?

Ter ou Ser, eis a questão.

Quem é pelas árvores opta pelo “ser”.

Quem é pelo lucro dos radares opta pelo “ter”, pelo vil metal que move a indústria da poda.

Quem opta pelo Ter — e sacrifica o meio ambiente para Ter — é ruim para o presente e péssimo para o futuro.

Não dará às futuras gerações uma cidade maior, melhor e mais bela do que recebemos.

A cidade só melhora quando a inovação não é só tecnológica, mas quando inova para a qualidade de vida.

Inovação faz a cidade de Berlim, que acresce sua área calma com uma ciclovia coberta, embaixo do seu metrô aéreo, cercada de bosques, zonas verdes e hortas urbanas, com a novidade de um piso capaz de transformar o atrito provocado pelos pneus em energia para iluminar o percurso e as instalações ao longo do trajeto.

Fiquei muito feliz de ver que o desenho apresentado pela Prefeitura de Berlim, no programa urbano “Radbahn”, em tudo se assemelha ao projeto do Metropolitano Aéreo, com rede de ciclovias, que apresentamos para Curitiba, na eleição de 2012, no traço do jovem arquiteto Guilherme Klock.

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Também fique feliz com o resultado da recente enquete da Rádio Banda B, onde espontaneamente, 31% dos participantes me apontou como possível futuro prefeito de Curitiba, entre 27 nomes citados, se candidato vier a ser.

Tenham certeza, isto se concretizando, usarei o poder municipal como um serviço à causa da Ecologia e do Humanismo. Exaustivamente servirei a Cidade com a ideia de devolvê-la – 4 anos depois – melhor, maior, mais humana e mais arborizada do que a recebi.mudaPodemos transplantar todas as magnólias derrubadas pela insanidade e insensibilidade do prefeito. Podemos mais, podemos plantar magnólias em toda Curitiba. E não é promessa vã: quando fui prefeito adquiri para a prefeitura um equipamento japonês para o transplante de árvores.

Quem sabe como fazer, não perde tempo. Faz na hora, não espera acontecer.

Fique com a frase síntese do nosso artigo: não existe área calma onde ronca a motosserra. Nossa vida calma, no futuro, depende da sua repulsa contra tudo isso que aí está.

*Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba, é engenheiro. Escreve às quartas-feiras no Blog do Esmael sobre “Inteligência Urbana”.

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