O presidente Lula (PT) participa, na terça-feira (12), às 10h, no Palácio do Planalto, do lançamento do Programa Brasil Contra o Crime Organizado, em uma resposta federal à expansão das facções e ao avanço da segurança pública como tema central da eleição de 2026.
O dado que apertou o cerco político veio do Datafolha, em pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública: 41% dos brasileiros com 16 anos ou mais dizem perceber a atuação do crime organizado no bairro onde moram. Isso equivale a cerca de 68,7 milhões de pessoas.
A fotografia é dura para qualquer governo. O medo deixou de ser estatística de boletim policial e entrou na rotina de bairros, com impacto sobre circulação, serviços, comércio local e confiança nas autoridades. Quando facção regula território, o Estado chega atrasado ou não chega.
O levantamento ouviu 2.004 pessoas em 137 municípios, nos dias 9 e 10 de março, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Entre os entrevistados, 51% disseram não perceber o problema na vizinhança, enquanto 7% não souberam responder.
O lançamento no Planalto tenta colocar Lula no centro da reação federal antes que a direita transforme a violência urbana em monopólio eleitoral. A pergunta que pesa sobre o pacote é simples: as medidas chegarão aos bairros dominados pelo crime ou ficarão no anúncio de Brasília?
O programa deve reunir ações contra o tráfico de armas, a lavagem de dinheiro das facções, a baixa solução de homicídios e a fragilidade do sistema prisional. A linha política do governo é atacar a estrutura financeira e operacional do crime organizado, não apenas prometer endurecimento penal.
Esse recorte importa porque a disputa de 2026 já incorporou a segurança pública como linguagem de campanha. Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato da direita, aposta no discurso duro contra o crime para colar em Lula a pecha de leniência, enquanto o Planalto tenta responder com integração, inteligência e dinheiro federal.
O risco para Lula é conhecido. Se o pacote não tiver execução visível, a direita venderá a ideia de que o governo fala em inteligência enquanto o cidadão convive com toque de recolher informal, medo de confronto e serviços controlados por grupos armados. O Datafolha deu tamanho nacional a essa percepção.
O risco para a direita também existe. A política de segurança baseada só em bravata costuma produzir palanque, não resultado. O eleitor que mora em área controlada por facção quer polícia funcionando, investigação financeira, bloqueio de armas, presídio sob controle e proteção para denunciar sem virar alvo.
O Planalto informou que o programa foi construído em diálogo com estados, forças de segurança e especialistas. Esse ponto será testado na prática, porque segurança pública no Brasil depende de cooperação entre União, governos estaduais, polícias, Ministério Público, Judiciário e sistema prisional.
A pressão eleitoral está posta. O governo quer mostrar serviço antes que a oposição transforme cada estatística de violência em peça de campanha. A oposição, por sua vez, tentará medir o pacote não pelo desenho técnico, mas pela sensação de segurança nas ruas.
O dado de 68,7 milhões de brasileiros convivendo com sinais de crime organizado derruba a tese de que facções são problema distante, restrito a grandes operações ou a estados específicos. A pesquisa colocou o tema dentro do bairro, da família, do comércio e do trajeto diário do trabalhador.
Lula entra na terça-feira (12) em uma pauta que não perdoa retórica vazia. O pacote só será politicamente forte se reduzir a distância entre decreto, orçamento e presença real do Estado nos territórios onde o crime organiza medo, dinheiro e silêncio.
Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.
*Requer WhatsApp atualizado. Se não abrir, atualize o app.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




