Moro ataca o PT, após ser avaliado como “medíocre” por Gilmar Mendes

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, funciona como uma espécie de “ISO” –certificador de qualidade– no judiciário brasileiro.

Pois bem, após ser avaliado pela “ISO” como “medíocre” em sua passagem pelo Ministério da Justiça, Sérgio Moro atacou de novo o PT.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, edição deste domingo (7), o ex-juiz equiparou PT e Jair Bolsonaro (sem partido), além de acenar para movimentos que pedem o impeachment do presidente da República.

Ora bolas, carambolas. Bolsonaro só foi eleito em 2018 graças ao conluio de Moro com a velha mídia. Foi em virtude da prisão ilegal do ex-presidente Lula e a vitória do atual presidente que Moro virou ministro da Justiça.

Do ponto de vista forense, isto é, da criminologia, Sérgio Moro busca eximir-se do pecado para que ele consiga dormir nas noites geladas de Curitiba. Sim, um criminoso nunca admite a culpa de seu ilícito porque ele [provavelmente] não conseguiria viver com esse sentimento.

O pai da psicanálise Sigmund Freud afirmava que por mais que o indivíduo saiba que cometeu um erro, sua mente ativa mecanismos defensores que tentam encontrar maneiras de fazer com que ele escape da culpa.

Na entrevista à Folha, o ex-ministro e ex-juiz Sérgio Moro não teve a grandeza de fazer uma autocrítica de seus erros. Passou sabão e ficou por isso mesmo.

Dito isso, segue a íntegra da entrevista de Sérgio Moro para Leandro Colon na Folha:

Em dezembro de 2018, o sr. disse que não via em Bolsonaro um risco de autoritarismo ou à democracia. Agora, o sr. tem falado em autoritarismo por parte dele. Ao ficar um ano e quatro meses no governo, o sr. não deu uma parcela de contribuição ao crescimento do bolsonarismo e a esse tom autoritário do presidente?

De maneira nenhuma. Aliás, quando entrei, alguma pessoas me falaram que viram minha entrada como alívio porque eu exerceria o papel moderador, tenho histórico de juiz, de respeito ao Estado de Direito, e sempre me vi dessa forma, como espécie de um anteparo a medidas mais autoritárias. Quando verifiquei que não tinha mais condições de exercer esse papel, eu sai.

Tem crescido movimentos como o “Juntos”, o “Basta”, o “Somos 70%”, em referência à parcela da população contrária ao governo. O sr. se considera hoje parte dos 70%?

​Sempre apoiei a democracia e o Estado de Direito. Minha saída do governo se insere nessa defesa. Democracia e Estado de Direito têm muito mais que 70%, quase 100%. É uma anomalia estar discutindo essas questões.

Vejo esses manifestos com naturalidade, como reação às declarações que não têm sido felizes por parte do presidente, esses arroubos autoritários. Estamos discutindo temas da Guerra Fria, não deveríamos.

O sr. fala de arroubos autoritários. Poderia dar exemplos?

Quando o presidente invoca as Forças Armadas, a minha percepção é que não existe nenhum espaço nelas para um movimento de exceção, um golpe, algo dessa espécie. Quando o presidente fica invocando, de maneira imprópria para defender posições políticas, isso gera nas pessoas receio, temor. Isso é um blefe? Ou é alguma coisa real? Deveria ser evitado.

Esses movimentos da sociedade têm pessoas de diferentes setores, de esquerda, de direita. Há uma resistência, sobretudo de críticos da Lava Jato, à possibilidade de o sr. aderir a eles.

Há uma incompreensão do que foi a Operação Lava Jato, um caso judicial de investigação de corrupção. Há pessoas que ficam ressentidas porque alguns de seus ídolos políticos foram atingidos. Assim como atingiu o ex-presidente Lula, atingiu o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. As pessoas foram processadas pelo crime de corrupção, que não tem nada de democrático.

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O sr. deseja aderir a algum movimento ou não pretende fazer isso?

Essa é uma questão em aberto. Minhas posições sempre foram muito favoráveis à democracia e ao Estado de Direito, e assim tenho me manifestado publicamente.

O sr. teria problema, por exemplo, em dividir espaço com o governador do Maranhão, Flávio Dino (PC do B), um crítico do seu trabalho e que assina um dos movimentos?

Essas questões nunca foram de nível pessoal. Agora, se há uma incompreensão das pessoas que fazem parte desses movimentos em relação à minha pessoa, talvez não seja o caso então, porque não me querem lá, não vou aderir, mas sempre tive minha posição muito firme de defesa do Estado de Direito e da democracia. Minha própria saída do governo é isso.

A democracia é um pressuposto fundamental, independentemente de qualquer partido, qualquer grupo. Na democracia temos muito mais pontos em comum do que divergências. As questões pessoais devem ser deixadas de lado.

O ex-presidente Lula disse que não vai aderir aos movimentos. Uma adesão dele seria um obstáculo ao sr.?

Nunca tratei essas questões nesse nível. Não tenho nenhum problema pessoal com Lula, ele pode ter comigo, não tenho nada. Discordo dele, divirjo do pensamento político dele e igualmente do que foi feito com a Petrobras durante o governo dele. Não existe um sentimento de animosidade pessoal, e divirjo dos crimes que foram cometidos. E não falei que vou abraçar o Lula. O movimento não é do Lula.

O sr. teria constrangimento em integrar movimentos que podem envolver personagens de quem o sr. foi algoz?

Não fui algoz de ninguém. Fiz meu trabalho como juiz, tem Eduardo Cunha, André Vargas, Lula, os diretores da Petrobras, é um trabalho. Ter um processo e ter condenado o Lula só me trouxeram problema, retaliação, ameaça, ofensa, mas fiz porque é meu trabalho, me convenci daquelas provas apresentadas, assim como foi em relação a todos os outros. Nunca é uma questão pessoal.

Agora, o que acho em relação ao PT, independentemente de manifesto, o que seria melhor eles fazerem, e isso foi colocado por determinadas vertentes do partido, é reconhecer seus erros. Melhor forma de você conseguir limpar seu caminho para o futuro é reconhecer os erros do passado. E a estratégia que eles adotam, negando os crimes que foram praticados durante a presidência do PT, durante o período que o partido tinha o controle sobre a Petrobras, junto a seus aliados, é mais ou menos o equivalente à postura do presidente da República, que nega a existência de uma pandemia no momento atual. É um erro isso.

Como o sr. vê esses protestos contra o governo?

Acho que, se as pessoas resolverem protestar nas ruas, têm que ter preocupação extremada contra violência e vandalismo, isso em qualquer circunstância não é aceitável, e acaba depondo contra a própria bandeira que é levantada. Durante uma pandemia, tenho reserva com a realização de protestos nas ruas. ​

O sr. sempre responde que não é hora de falar em eleição em 2022. O sr. sonha em um dia ser presidente?

Não existe nada disso. Eu tinha um plano quando estava no ministério, saí faz um mês. Nunca tive essas ambições pessoais nesse nível, sou uma pessoa muito mais simples.

Em relação ao inquérito sobre a interferência de Bolsonaro na PF, há uma expectativa sobre se o sr. tem uma carta na manga, uma bala de prata. O sr. teria mais mensagens com o presidente, por exemplo?

O local próprio para discutir esses questões é o inquérito. Quando prestei as declarações, nunca foi meu interesse prejudicar o governo. Eu quis explicar por que estava saindo e minha intenção era proteger a PF da interferência política. Não foi por causa do diretor em questão, da PF em questão, mas porque é uma instituição que deve agir como órgão do Estado. Quem solicitou a abertura do inquérito foi a PGR.

Como o sr. vê a aliança do presidente com partidos do centrão, que têm personagens alvo da Lava Jato?

Qualquer governo precisa de alianças políticas no Parlamento. A melhor maneira é pegar parlamentares que se destacam por um histórico de uma atuação mais ética e defender uma agenda positiva de combate à corrupção e valorizar essas personagens e não outros.

Alianças com algumas figuras políticas questionáveis não contribuem para a imagem do governo. Entregar cargos, com orçamentos expressivos, para serem preenchidos por indicações políticas provenientes de pessoas condenadas ou acusadas de corrupção contraria tudo o que a Lava Jato representou.

O STF deve decidir nesta semana sobre o futuro do inquérito das fake news. O sr. é a favor dessa investigação?

Temos que diferenciar a liberdade de expressão e de imprensa, que têm de serem protegidas, da disseminação em massa de notícias falsas, ofensas e ameaças. Essas condutas não estão albergadas pela liberdade de expressão ou de imprensa. Temos os crimes de calúnia, difamação e ameaça e essas notícias falsas se inserem nesse contexto, com o agravante de que aqui estamos tratando de disseminação.

O inquérito aponta para a existência do chamado “gabinete do ódio”, no Planalto, tutelado por Carlos Bolsonaro, filho do presidente. O sr. ouvia falar do gabinete dentro do governo?

Não conheço detalhes, mas essa era uma expressão que não era desconhecida no governo. Alguns diziam que tinha o gabinete do ódio, utilizam essa expressão.

O sr. fala em liberdade de expressão e autoritarismo. No ano passado, o sr. criticou a Folha por uma reportagem sobre um inquérito aberto contra grupo de punks de Belém que fizeram cartazes do evento “facada fest”. O sr. mantém essa posição? Isso não é um viés autoritário?

Distribuir fotos, desenhos ou representações de alguém esfaqueado, ainda levando em consideração o histórico do presidente da República, que levou uma facada nas eleições, para mim não está protegido pela liberdade de expressão. Não tem nada de autoritário aí, estamos aplicado leis, que existem em vários países, como injúria, calúnia e ameaça.

Todos nós cometemos erros. O sr. poderia fazer uma autocrítica do seu período no governo?

Eu entrei com as melhores das intenções, as coisas às vezes não são bem compreendidas. Tinha o intuito de servir como garantia do Estado de Direito, em relação a posições mais extremadas do governo, e garantir uma agenda anticorrupção, anticrime organizado, anticrime violento, no fortalecimento da democracia e da economia do país. Permaneci fiel a esses compromissos, desde sempre, e igualmente com minha saída.

O sr. diz que o PT tem que reconhecer seus erros, mas o sr. não aponta um de sua parte. Se você tiver um exemplo específico..

Na relação com o Congresso? Sempre tive uma relação cordial com o Congresso.