Donald Trump quer o Nobel da Paz. E, ao que tudo indica, joga pesado para isso. O presidente dos Estados Unidos ordenou o cessar-fogo entre Israel e Irã, e, por ora, as bombas silenciaram. Mas as contradições se acumulam: enquanto se apresenta como artífice da paz, Trump acaba de bombardear instalações nucleares iranianas e compara a ação ao ataque atômico dos EUA sobre Hiroshima.
Cessar-fogo no Oriente Médio
Após 12 dias de guerra intensa, Israel e Irã acataram o pedido de Trump por uma trégua. Israel atacou as instalações nucleares iranianas no dia 13 de junho, alegando ameaça existencial. O Irã retaliou com mísseis contra cidades israelenses e bases americanas no Oriente Médio. Diante da escalada, Trump mobilizou bombardeiros B-2 e lançou uma ofensiva sobre as instalações nucleares iranianas, num ataque classificado pelo Pentágono como “devastador”.
Apesar da retórica de “aniquilação”, relatórios da inteligência americana e da ONU apontam que o programa nuclear iraniano sofreu danos, mas não foi destruído. Israel, por sua vez, mantém o discurso de vitória e aponta que o Irã foi empurrado “anos para trás”.
O cessar-fogo, mediado por Trump, trouxe alívio imediato. O aeroporto de Tel Aviv reabriu e crianças voltaram às aulas. Em Teerã, apoiadores do regime comemoraram, enquanto o parlamento iraniano aprovava a suspensão da cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Guerra em Gaza segue sem trégua
Paralelamente ao conflito Irã-Israel, Gaza continua sendo palco de uma guerra brutal. Sete soldados israelenses morreram ontem em Khan Younis após a explosão de um blindado. As forças israelenses culpam o Hamas, que afirma que as negociações de cessar-fogo estão estagnadas. Netanyahu, pressionado internamente, resiste a interromper a ofensiva.
O saldo da guerra em Gaza ultrapassa 56 mil mortos, segundo autoridades palestinas — a maioria mulheres e crianças. A devastação humanitária se intensifica, enquanto as negociações indiretas para um novo acordo fracassam.
Ucrânia: promessa não cumprida
Enquanto tenta capitalizar o cessar-fogo no Oriente Médio, Trump é cobrado pela promessa de pôr fim à guerra na Ucrânia. Desde que assumiu o mandato em janeiro, o presidente americano afirmou que “resolveria o conflito em 24 horas”. Passados seis meses, o conflito segue aberto, com novas ofensivas da Rússia e impasse nas negociações de paz.
Leia também:
- Palestinos mortos em Gaza passam de 56 mil; guerra EUA-Israel-Irã trava
- Trégua entre Irã e Israel desmorona sob ataques e desconfiança
- Após bombardeio à base americana, Trump anuncia cessar-fogo “completo e total” entre Israel e Irã
- Irã avisou Trump sobre ataque à base no Catar
- Brasil condena ataques nucleares de EUA e Israel ao Irã
Ambições e contradições
A comparação de Trump entre os ataques ao Irã e o bombardeio atômico de Hiroshima revela o grau de beligerância de sua política externa. “Foi a mesma coisa, isso encerrou a guerra”, afirmou em Haia, durante a cúpula da OTAN. Ao mesmo tempo, o presidente americano minimiza relatórios internos que indicam danos limitados ao programa nuclear iraniano e critica a imprensa por “desvalorizar um dos maiores sucessos militares da história”, segundo ele.
Na prática, Trump tenta transformar o conflito em capital político e simbólico. Busca o Nobel da Paz, enquanto mantém o planeta sob tensão e flerta com limites legais — tanto internacionais quanto domésticos.
Nos bastidores do Congressodos EUA, cresce o desconforto com a condução das operações militares sem prévia autorização parlamentar. Democratas cobram explicações sobre o ataque ao Irã e questionam a legalidade da ação.
Reeleição e ambições sem fim
O presidente confirmou recentemente que cogita buscar um terceiro mandato, apesar da 22ª Emenda proibir mandatos consecutivos e totais acima de dois. Irritado, Trump afirma que “muita gente quer” que ele continue e que há “jeitos de fazer isso”. Ele não detalhou, mas mencionou cenários como emendas constitucionais ou estratégias usando o vice-presidente J.D. Vance para contornar a limitação.
Essa ambição coloca a política externa sob nova ótica: Trump usa o cessar-fogo do Irã–Israel como sinal de liderança global – e ensaia um terceiro mandato presidencial, jogando com a ideia de reeleição indefinida.
Trump pacificador?
O presidente Trump conseguiu, até aqui, silenciar temporariamente as bombas no Oriente Médio. Mas as feridas seguem abertas: Gaza continua em guerra, o Irã promete resistir, a Ucrânia segue em chamas. E o mundo assiste, entre ceticismo e apreensão, à tentativa do presidente americano de reescrever sua biografia com o rótulo de pacificador.
Leia no Blog do Esmael as próximas atualizações sobre os bastidores dessa crise global.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




