O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central e o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, decidem os juros nesta quarta-feira (18), num dia que deixou de ser mero ritual de calendário e virou prova de fogo para medir o tamanho do susto dos mercados com a guerra no Oriente Médio e a disparada recente do petróleo. No Brasil, a Selic está em 15% ao ano desde janeiro, e a aposta que parecia mais clara para um corte passou a conviver com dúvida real: redução menor ou até manutenção.
A pergunta que interessa ao leitor é simples: a Selic cai ou não cai, e o que isso muda no crédito, no diesel e na vida real?
Até o começo da nova crise no Golfo, o mercado discutia um corte mais limpo no Brasil. Mas o choque do petróleo embaralhou as contas. Nesta quarta, como registrou o Blog do Esmael, o Brent recuou um pouco com a retomada parcial das exportações do Iraque por Ceyhan, na Turquia, porém continuou acima de US$ 100 o barril pelo quarto pregão seguido. A leitura dos investidores é direta: petróleo alto pressiona combustíveis, frete e inflação.
Nos Estados Unidos, o Fed conclui hoje a reunião de março, com anúncio às 14h de Washington e coletiva meia hora depois. A expectativa predominante é de manutenção dos juros na faixa de 3,50% a 3,75%, mas com tom mais duro, justamente porque a alta do petróleo reacendeu o medo de inflação persistente. A Reuters informou que parte do mercado já reduziu as apostas em cortes rápidos e passou a enxergar um Fed mais cauteloso.
No Brasil, o pano de fundo não é muito diferente. O próprio calendário do Banco Central marca a reunião do Copom nesta semana, e o comunicado sai ao fim do encontro. A última decisão, em janeiro, manteve a Selic em 15% ao ano. Já o Boletim Focus, reproduzido pela Agência Brasil, mostrava na véspera expectativa de redução de apenas 0,25 ponto nesta reunião, sinal de que o mercado já vinha revisando para baixo a chance de um corte mais robusto.
Traduzindo do economês: se o Banco Central entender que a nova onda do petróleo pode contaminar preços no Brasil, sobretudo combustíveis e transporte, ele tende a agir com mais prudência. Nessa hipótese, a Selic pode cair menos do que se imaginava, ou simplesmente ficar parada. Se avaliar que o choque externo ainda é temporário e que a economia interna permite algum alívio, pode entregar um corte pequeno para começar a destravar o crédito sem perder o discurso de vigilância. Essa leitura decorre da combinação entre a alta recente do petróleo, a meta de inflação de 3% com intervalo de tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo e o histórico de cautela do BC em momentos de pressão inflacionária.
E onde isso bate no bolso?
Primeiro, no crédito. A Selic é a taxa básica da economia e influencia empréstimos, financiamento de veículos, rotativo do cartão, cheque especial e custo do dinheiro para empresas. Quando cai, o efeito não é instantâneo nem completo, mas ajuda a reduzir o aperto financeiro ao longo do tempo. Quando fica parada em nível muito alto, a mensagem é a oposta: crédito segue caro, consumo continua travado e investimento demora mais a reagir.
Segundo, no diesel. A Selic não muda o preço do diesel na bomba de forma direta. O que pesa aí é principalmente o petróleo, o câmbio e a política de preços dos combustíveis. Mas juros altos entram no circuito porque são a arma do Banco Central para tentar conter a inflação que nasce justamente de choques como esse. Em outras palavras, petróleo caro piora a inflação; para segurar essa inflação, o BC tende a ser mais duro com os juros; e o resultado pode ser um alívio mais lento no custo do crédito.
Terceiro, na política. Juros altos, diesel pressionado e inflação mais sensível compõem uma equação explosiva em ano eleitoral. Isso afeta popularidade, cobrança sobre o Banco Central, desgaste do governo com custo de vida e humor do setor produtivo. A “superquarta”, portanto, não é só um evento técnico. É um teste de nervosismo para saber quem terá margem para respirar e quem continuará pagando a conta.
O quadro desta quarta-feira é este: o Fed deve manter os juros, o petróleo ainda ronda patamar elevado mesmo após leve recuo, e o Copom chega ao fim do dia pressionado a equilibrar prudência e algum sinal de alívio. O mercado queria previsibilidade. A guerra devolveu incerteza.
Na vida real, a resposta mais honesta para o leitor agora é a seguinte: a Selic até pode cair, mas o ambiente ficou mais nervoso e já não aponta para um corte folgado. E, mesmo que haja redução, o combustível continuará dependendo muito mais do petróleo do que do Copom. O que a decisão de hoje realmente dirá é se o Banco Central enxerga espaço para começar a aliviar o sufoco do crédito ou se prefere esperar a poeira da guerra baixar.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




