Início / donald Trump

Europa se recusa a embarcar na guerra de Trump contra o Irã

Donald Trump descobriu nesta terça-feira (17) que uma coisa é bombardear o Irã com Israel, outra bem diferente é convencer a Europa a dividir a conta militar e política da escalada. Os principais aliados europeus rejeitaram o apelo da Casa Branca para enviar navios de guerra ao Estreito de Ormuz e deixaram claro, em público e nos bastidores, que não pretendem transformar uma guerra escolhida por Washington em missão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

A resposta europeia atinge o coração da estratégia de Trump. O presidente dos Estados Unidos pressionou parceiros a participar de uma força naval para reabrir Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do comércio global de petróleo e gás liquefeito. Mas a chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Kaja Kallas, disse que o bloco procura uma saída diplomática e resumiu a resistência continental com uma frase que virou síntese política do momento: ninguém quer colocar suas tropas em risco nessa operação.

Não se trata apenas de divergência tática. Alemanha, Itália, Espanha e outros aliados sinalizaram que não querem ser arrastados para um conflito cujo desenho estratégico continua nebuloso, enquanto Reino Unido e Dinamarca deixaram aberta apenas a discussão sobre ajuda indireta, sempre com o freio da desescalada acionado. Na prática, a Europa disse a Trump que a guerra é dos Estados Unidos, não dela.

Esse isolamento político de Washington tem efeito imediato no mercado. O petróleo Brent subiu forte novamente nesta terça-feira (17) e chegou a US$ 103,73 por barril, em meio a novos ataques iranianos, paralisações em ativos energéticos dos Emirados Árabes Unidos e à percepção de que a rota de Ormuz continua vulnerável sem uma coalizão internacional robusta para garantir o fluxo marítimo.

A tensão deixou de ser abstração geopolítica. Um petroleiro foi atingido por um projétil a leste de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, segundo a agência marítima britânica UKMTO. O episódio reforçou a sensação de que qualquer promessa de “normalização” da navegação ainda está longe de se materializar.

Até organismos internacionais esfriaram a bravata militar. O secretário-geral da Organização Marítima Internacional (OMI), Arsenio Dominguez, advertiu que escoltas navais não garantem segurança total aos navios e não representam solução sustentável de longo prazo para a crise em Ormuz. Ou seja: nem com fragatas no mar há garantia real de passagem segura.

Para o Brasil, o problema é direto e nada teórico. Com o Brent acima de US$ 103 e o Estreito de Ormuz ainda sob forte perturbação, a guerra entra na cozinha da economia brasileira pela porta dos combustíveis, do frete, da inflação e dos juros. E entra justamente quando o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne nesta terça (17) e quarta-feira (18), num momento em que o mercado vinha discutindo o início de um ciclo de corte da Selic após a manutenção em 15% na reunião de janeiro.

É aí que a crise externa reorganiza o dia brasileiro. Quando o petróleo sobe com essa violência, aumentam a pressão sobre gasolina e diesel, o custo do transporte e a contaminação de expectativas inflacionárias. Em outras palavras, a guerra de Trump no Golfo oferece ao mundo um choque de energia e, ao Banco Central, mais um argumento para a cautela, favorável aos oligarcas do sistema financeiro.

No campo político internacional, o recado europeu também tem peso histórico. Ao se recusar a entrar na aventura militar, o continente mostra que a aliança atlântica continua formalmente viva, mas cada vez menos automática quando a Casa Branca exige adesão a uma escalada aberta. Trump queria transformar Ormuz em teste de fidelidade. Acabou recebendo uma resposta mais seca: apoio diplomático, talvez; cheque em branco para guerra, não.

Enquanto isso, o conflito segue se ampliando no terreno. Israel afirmou ter matado o chefe da força Basij, Gholamreza Soleimani, e também alegou ter atingido Ali Larijani, nome central da segurança iraniana, embora as informações sobre Larijani ainda apareçam cercadas de versões divergentes e sem confirmação independente definitiva do lado iraniano. A escalada militar continua, e com ela continua o risco de novo salto no petróleo.

No fim das contas, a Europa percebeu antes de Trump o tamanho da armadilha. Entrar nessa guerra significaria importar para dentro da própria economia um conflito sem horizonte claro de saída, com risco militar elevado e custo político imprevisível. Para o Brasil, isso importa porque a fatura chega rápido: no posto, no supermercado, no frete e, possivelmente, na mesa do Copom. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Leia também no Blog do Esmael: Trump anuncia cessar-fogo com Irã, mas acordo deixa bomba nuclear e sanções para depois; Trump anuncia acordo com Irã, mas Teerã freia assinatura e disputa termos de Ormuz; Irã responde aos EUA e Trump rejeita proposta de paz