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Paraná aparece em segundo no mapa da violência política contra mulheres

O Paraná aparece como o segundo estado brasileiro com mais processos de violência política de gênero registrados em 2026. São 19 casos no painel apresentado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 22 de setembro, número inferior apenas aos 29 de São Paulo. O levantamento nacional contabiliza 177 processos até setembro e coloca a violência contra mulheres no centro da reta final das eleições de 4 de outubro.

O número exige uma leitura precisa. Os 19 registros paranaenses não significam que 19 crimes tenham sido comprovados, nem que todos os fatos investigados tenham ocorrido em 2026. O dado indica processos registrados na Justiça Eleitoral durante o ano. A data de autuação pode ser posterior à ocorrência que deu origem ao procedimento.

Também não se trata necessariamente de 19 vítimas diferentes. O painel contabiliza processos e reúne diferentes classes judiciais. No Paraná, aparecem oito inquéritos policiais, três recursos criminais eleitorais, duas representações criminais ou notícias de crime e outros procedimentos, como ação penal eleitoral, petição criminal e procedimento investigatório do Ministério Público.

A dimensão do crescimento aparece com maior clareza quando se utiliza um período comparável. Entre janeiro e agosto de 2026, a Justiça Eleitoral autuou 149 processos relacionados à violência política contra mulheres. No mesmo intervalo de 2024, último ano eleitoral, foram 31. O salto é de aproximadamente 381%, ou cerca de 380% na comparação divulgada a partir dos dados do TSE.

O total chegou a 177 processos registrados entre janeiro e 21 de setembro de 2026, superando a contagem observada nos anos anteriores. O crescimento dos registros, entretanto, não permite concluir sozinho que a violência real tenha aumentado exatamente na mesma proporção. Maior conhecimento da legislação, novos canais de denúncia e maior identificação dessas condutas também podem influenciar o volume de processos levados às autoridades.

A legislação eleitoral considera crime assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidata ou mulher detentora de mandato, usando menosprezo ou discriminação relacionados à condição de mulher, cor, raça ou etnia, com a finalidade de impedir ou dificultar a campanha ou o exercício do mandato. A definição está no artigo 326-B do Código Eleitoral.

O dado paranaense ganha peso político porque surge a menos de duas semanas do primeiro turno e em uma eleição na qual mulheres disputam cargos majoritários e proporcionais no estado. Mas o ranking do painel não autoriza transformar denúncias ou disputas específicas da campanha em casos integrantes desses 19 processos sem identificação documental da correspondência.

Essa cautela vale para a notícia-crime apresentada pela candidata ao Senado Gleisi Hoffmann (PT) ao Ministério Público Eleitoral contra Deltan Dallagnol (Novo), Filipe Barros (PL) e Jeffrey Chiquini (Novo). A petista acusa os adversários de violência política contra a mulher por quatro episódios ocorridos entre março e setembro. A apresentação da peça é fato; a ocorrência dos crimes alegados depende de apuração. E não há base, apenas com os dados públicos consultados, para afirmar que essa notícia-crime corresponde a um dos 19 processos contabilizados pelo painel do TSE.

A separação é importante porque o próprio sistema reúne fontes diferentes. Além dos processos que tramitam na Justiça Eleitoral, a apresentação divulgada em 22 de setembro mencionou registros existentes no Ministério Público Federal (MPF). O Bem Paraná informou 34 registros no MPF em 2026, dois deles no Paraná. Esses números pertencem a outro recorte e não devem ser confundidos com os 177 processos judiciais.

Ao apresentar o painel, o TSE anunciou também um Protocolo de Ação Conjunta com a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE). O acordo estabelece intercâmbio seguro de informações, mecanismos de prevenção e denúncia e alimentação permanente do painel de monitoramento. A Ouvidoria do TSE passa a funcionar como canal especializado de escuta, orientação, registro, triagem e acompanhamento dessas manifestações.

O protocolo prevê inclusive o recebimento de manifestações anônimas. Havendo elementos mínimos, o relato pode ser encaminhado à instituição competente; se as informações forem insuficientes para uma providência imediata, ainda poderão ser utilizadas para monitoramento. O TSE também lançou a campanha “Política é Substantivo Feminino”, em parceria com o MPF, e uma capacitação para integrantes da Justiça Eleitoral.

O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou durante o lançamento que os registros disponíveis podem não revelar toda a dimensão do problema por causa da subnotificação. A avaliação institucional é que parte das mulheres não identifica determinadas práticas como violência política ou deixa de denunciá-las por medo, pressão ou relações de poder.

O mapa divulgado pelo TSE, portanto, mede a chegada do problema ao sistema de Justiça, não uma sentença definitiva sobre cada episódio. Ainda assim, os 19 processos colocam o Paraná imediatamente atrás de São Paulo e transformam a violência política contra mulheres em um dado concreto da eleição de 2026 no estado.

Acompanhe no Blog do Esmael a cobertura das eleições de 2026, das decisões da Justiça Eleitoral e dos conflitos que atravessam a disputa política no Paraná.