O deputado federal Welter (PT-PR) levou a escala 6×1 para dentro do campo paranaense ao apresentar o REQ 97/2026, aprovado nesta quarta-feira (13), para uma audiência pública sobre o fim da jornada de seis dias de trabalho por um de descanso sob a ótica do trabalho rural e da agricultura familiar.
O requerimento foi apresentado na Comissão Especial sobre o Fim da Escala 6×1 Vida Digna ao Trabalhador, que analisa a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 e propostas apensadas. A iniciativa desloca o debate, até aqui mais associado a comércio, shopping, aplicativos e serviços urbanos, para a rotina de assalariados rurais, agricultores familiares, cooperativas, sindicatos e agroindústrias.
O texto de Welter pede a presença de representantes de entidades da agricultura familiar, movimentos de trabalhadores do campo, confederação nacional dos trabalhadores rurais, cooperativas da agricultura familiar, organizações sindicais rurais, movimentos ligados à reforma agrária e Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.
A audiência ainda não resolve o mérito da proposta. Ela abre uma frente política. No Paraná, essa frente interessa a quem bate ponto em granja, frigorífico, lavoura, agroindústria, cooperativa, comércio de cidade média e serviço rural terceirizado.
A Câmara informou que o relator da comissão especial, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), apresentou cronograma para tentar concluir a votação do texto até 27 de maio. A previsão é votar o relatório na comissão no dia 26 e levar a proposta ao Plenário no dia seguinte.
O ponto de partida da comissão é a PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que prevê redução gradual da jornada semanal de 44 para 36 horas em dez anos. A PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), também entrou no debate ao propor semana de quatro dias de trabalho, com limite de 36 horas.
O recorte rural muda o tipo de pergunta que o Congresso terá de responder. Não basta discutir escritório, shopping ou aplicativo. O campo tem safra, sazonalidade, transporte difícil, distância entre casa e trabalho, dependência de clima e cadeias produtivas que misturam família, empregado, cooperativa e indústria.
No Paraná, a agricultura familiar representa 75% dos empreendimentos rurais, segundo o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), com presença em cadeias como milho, mandioca, leite, olerícolas, feijão, arroz, suínos, aves, café, trigo e frutas.
Essa é a razão política da iniciativa. Ao chamar agricultura familiar, sindicatos rurais e cooperativas para a audiência, Welter força a bancada federal do Paraná a sair da resposta genérica. Quem se diz defensor do campo terá de dizer se aceita discutir jornada, descanso, renda e produtividade também fora da cidade.
A Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Estado do Paraná (Fetaep) aparece como ator natural desse debate, porque representa a agricultura familiar no estado e tem histórico de atuação sindical no campo. A entidade completou 60 anos e reúne sindicatos de trabalhadores rurais e agricultores familiares.
O conflito real está na fronteira entre direito trabalhista, custo de produção e disputa eleitoral. Trabalhadores rurais e sindicatos tendem a pressionar por mais descanso e previsibilidade. Cooperativas, agroindústrias e pequenos produtores podem cobrar transição, regra específica e conta econômica.
A pauta também alcança 2026. A escala 6×1 já virou tema nacional, mas o requerimento de Welter dá ao Paraná um recorte próprio: o voto do interior, a vida no campo e a pressão sobre uma bancada que costuma tratar o agro como identidade política, mas raramente discute a jornada de quem trabalha na base da produção.
A decisão da Câmara ainda depende de parecer, negociação e voto. O fato novo é que a escala 6×1 deixou de ser apenas debate de grandes centros e entrou no território rural paranaense por uma porta institucional.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




