Curitiba parou para dizer não à anistia de Jair Bolsonaro (PL) e dos demais golpistas e para rejeitar, como nunca antes, os presidentes do Congresso Nacional, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP). A manifestação na Boca Maldita, centro nervoso da política paranaense, reuniu milhares e escancarou o divórcio entre o Legislativo federal e o sentimento das ruas.
O ato transformou o tradicional reduto cívico do Centro em um grande palanque democrático. Cartazes, palavras de ordem e discursos apontaram diretamente para o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), acusados de conduzir uma manobra legislativa que reduz penas e pavimenta a impunidade dos crimes de 8 de Janeiro.
Nunca na história recente do país os chefes do Congresso foram tão frontalmente hostilizados em praça pública. O grito de “Congresso inimigo do povo” sacudiu a Boca Maldita e sintetizou a percepção de que o Parlamento foi capturado pelo Centrão e afastado das demandas sociais.
O alvo central foi o chamado PL da Dosimetria, aprovado na Câmara em votação relâmpago e na calada da noite. Para os manifestantes, trata-se de uma anistia disfarçada que beneficia diretamente Jair Bolsonaro e líderes militares já condenadas pelo Supremo Tribunal Federal por atentarem contra o Estado Democrático de Direito.
Além da anistia, o protesto também mirou o orçamento secreto. Criado no governo Bolsonaro e declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em 2022, o esquema de emendas sem transparência foi estruturado e operado por líderes do Centrão, com investigações da Polícia Federal apontando seu uso como moeda de troca para garantir apoio parlamentar, blindar aliados e fabricar maiorias artificiais no Congresso. Na Boca Maldita, a crítica foi direta, informada e sem rodeios.

A mobilização em Curitiba integrou um dia nacional de protestos. Atos ocorreram em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília, convocados pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo, centrais sindicais e movimentos sociais. Em comum, a defesa da democracia e a rejeição à impunidade dos golpistas.
Na capital paranaense, porém, o ato também revelou lacunas. Apesar da força política e simbólica, a manifestação deixou de incorporar pautas econômicas centrais para a vida cotidiana da população. Não houve cobrança organizada pela redução da taxa básica de juros, mantida em 15% ao ano, a mais alta do mundo, nem destaque consistente para o fim da escala de trabalho 6×1.
O silêncio sobre os juros chama atenção. Enquanto o Congresso se mobiliza para aliviar penas de golpistas, o Banco Central mantém uma política monetária que sufoca o crescimento econômico, inibe investimentos, limita a geração de empregos e amplia o endividamento das famílias. Faltou conectar a defesa da democracia política com a luta por justiça econômica.
Ainda assim, o recado das ruas foi cristalino. Curitiba mostrou que a paciência com acordos de bastidores se esgotou e que Hugo Motta e Davi Alcolumbre se tornaram símbolos de um Congresso cada vez mais rejeitado pela sociedade.
Quando a Boca Maldita fala alto, Brasília costuma ouvir. Resta saber se o Congresso vai recuar ou insistir na blindagem dos seus, pagando o preço político nas urnas.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




