A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aprovou na sexta-feira (12) a transferência de controle da plataforma de aeroportos da Motiva, antiga CCR, para a mexicana Asur. No Paraná, o pacote inclui Afonso Pena, Bacacheri, Foz do Iguaçu e Londrina, quatro terminais que ligam passageiro, turismo, carga, hotelaria e negócios a uma nova rodada de dependência privada da infraestrutura.
A decisão da Anac não é uma nota de rodapé empresarial. É a troca do comando de aeroportos que afetam o preço de embarque, a qualidade do terminal, a oferta de voos, a circulação de turistas e a logística de cargas em um estado que já entregou rodovias, pedágios, energia e serviços estratégicos a contratos de longo prazo com grandes operadores privados.
A agência reguladora aprovou a anuência prévia para que a Motiva transfira o controle societário de sua plataforma aeroportuária ao Grupo Aeroportuario del Sureste (Asur), do México. O negócio envolve 20 aeroportos administrados pela Companhia de Participações em Concessões (CPC), braço aeroportuário da Motiva.
A operação havia sido anunciada em novembro de 2025. O valor total informado pela Motiva foi de R$ 11,5 bilhões, com R$ 5 bilhões em participação acionária e R$ 6,5 bilhões em dívidas líquidas. A Anac deu o aval regulatório, mas a conclusão ainda depende das etapas contratuais e societárias entre as partes.
O diretor da Anac Roberto Honorato relatou o processo e afirmou que a compradora atendeu aos requisitos jurídicos, técnicos e fiscais. A leitura oficial da agência é que a operação não compromete a continuidade, a regularidade nem a qualidade dos serviços aeroportuários concedidos.
É justamente aí que mora a pergunta política. Quem vai conferir, no balcão, na fila, no preço e no painel de voos, se essa promessa regulatória chegará ao passageiro paranaense?
O Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, é a principal porta aérea da Região Metropolitana de Curitiba. Seu desempenho atinge o trabalhador que viaja a serviço, o turista que chega à capital, o setor de eventos, os hotéis, os aplicativos de transporte, as locadoras, os restaurantes e o passageiro que paga caro para chegar ou sair do Paraná.
O Bacacheri, em Curitiba, tem outra função. O terminal é voltado à aviação executiva, à manutenção de aeronaves e a serviços especializados. Mesmo sem a visibilidade política do Afonso Pena, ele integra a infraestrutura que atende empresários, operações técnicas, aviação geral e serviços que raramente entram no debate eleitoral.
Foz do Iguaçu é ainda mais sensível. O aeroporto é peça direta da economia do turismo, porque conecta visitantes às Cataratas do Iguaçu, à Itaipu, ao comércio de fronteira e à hotelaria. Se o serviço piora, o prejuízo não fica apenas no terminal. Ele se espalha por guias, motoristas, restaurantes, agências, bares, trabalhadores informais e pela arrecadação local.
Londrina fecha o mapa paranaense do pacote com peso regional. O aeroporto atende o norte do estado, uma região de universidades, agronegócio, comércio, saúde e serviços. Para quem vive fora da capital, a malha aérea não é luxo. É acesso a negócios, tratamento médico, reuniões, conexões nacionais e integração com outros centros econômicos.
A Motiva informa que sua rede aeroportuária movimenta 45 milhões de passageiros por ano, tem 200 rotas regulares e transporta mais de 60 mil toneladas de carga doméstica e internacional. Esses números ajudam a medir o tamanho do negócio. Também mostram o tamanho da responsabilidade pública que não pode desaparecer atrás de uma operação societária.
O discurso empresarial fala em eficiência, experiência do passageiro, rotas estratégicas e desenvolvimento do turismo. A política precisa falar de fiscalização, tarifa, contrato, metas, investimentos, transparência e sanção quando o serviço falha.
A Anac tem instrumentos para acompanhar qualidade de serviço em aeroportos concedidos, inclusive indicadores e efeitos sobre reajustes tarifários. O problema é que o usuário comum não acompanha painel regulatório. Ele sente a concessão quando paga mais, quando perde conexão, quando enfrenta fila, quando não encontra voo ou quando a promessa de investimento vira peça de publicidade.
No Paraná, o debate ganha uma questão adicional. O estado tem vivido sob a lógica de que quase toda infraestrutura estratégica precisa passar por concessionária, grupo econômico, contrato bilionário e regulação distante do cidadão. Foi assim com pedágios. Foi assim com energia. Agora a troca de controle nos aeroportos recoloca a mesma questão no ar.
O governador Ratinho Junior (PSD) costuma tratar concessões como sinônimo de modernização. A oposição vê no modelo uma transferência de poder econômico sobre serviços essenciais. O eleitor, no entanto, julga pelo bolso e pelo uso concreto: preço, acesso, qualidade e resposta quando dá problema.
A entrada da Asur no controle da plataforma aeroportuária não significa, por si só, que o serviço vai melhorar ou piorar. O fato confirmado é outro: a Anac autorizou a transferência, a Motiva sairá da plataforma aeroportuária e um grupo mexicano passará a comandar ativos que afetam diretamente o Paraná.
A pergunta que fica para o governo federal, para a Anac, para o governo do Paraná, para prefeitos, deputados e usuários é simples: qual será o padrão de serviço cobrado da nova controladora nos aeroportos paranaenses?
Se a resposta vier apenas em linguagem de mercado, o passageiro continuará sendo tratado como detalhe. Se vier em forma de metas públicas, fiscalização permanente e cobrança política, a troca de controle poderá ser medida pelo que realmente importa: tarifa, voo, atendimento, investimento e respeito ao usuário.
O Paraná não pode descobrir tarde demais que aeroporto, como pedágio, só vira tema popular quando pesa no bolso ou trava a vida de quem precisa circular. A concessão muda de dono; a responsabilidade pública não pode mudar de endereço.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




