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Sergio Moro, Filipe Barros e Deltan Dallagnol abriram a campanha eleitoral neste domingo (16) em uma live marcada pelo discurso de “união da direita”, mas, paralelamente, perfis bolsonaristas de Curitiba passaram a divulgar Filipe Barros ao lado de Alexandre Curi para o Senado, expondo uma contradição na própria chapa oposicionista.
A campanha eleitoral começou neste domingo (16) com uma imagem que merece lupa no Paraná: de um lado, Sergio Moro, Filipe Barros e Deltan Dallagnol apareceram juntos em uma superlive para vender a ideia de uma direita unificada; de outro, nas redes sociais, peças de perfis identificados com a direita curitibana passaram a apresentar Filipe Barros ao lado de Alexandre Curi na disputa pelas duas vagas ao Senado.
A contradição está no coração da estratégia eleitoral de Moro.
Na live, Moro, candidato do Partido Liberal (PL) ao governo do Paraná, tratou Filipe Barros e Deltan como uma chapa fechada para o Senado. A mensagem foi repetida diversas vezes durante a transmissão: quem vota em um deveria votar no outro.
“Felipe Barros 222 pro Senado, Deltan 300 pro Senado Federal, quem vota em um vota no outro, quem vota no outro vota em um”, afirmou Moro no encerramento da transmissão.
Deltan reforçou a mesma linha. Segundo ele, Filipe Barros e ele deveriam ser tratados como integrantes de um mesmo “time”, com os números eleitorais 22 e 300.
A fala não foi apenas uma defesa genérica de alianças. Durante mais de uma hora, os três candidatos construíram uma narrativa de que a direita teria finalmente conseguido superar suas divisões no Paraná.
Filipe Barros disse que a união representaria o “anseio do povo paranaense”. Deltan afirmou que o grupo seria formado por pessoas que não se dobraram ao “sistema”. Moro, por sua vez, apresentou os dois candidatos ao Senado como os únicos nomes do campo da direita com posição clara contra o governo Lula.
O problema é que a propaganda eleitoral não acontece apenas no palanque oficial.
Filipe aparece com Curi nas redes
Enquanto a live apresentava Filipe e Deltan como uma dupla indissociável, perfis de direita em Curitiba começaram a divulgar uma composição diferente.
As páginas República de Curitiba e República Paraná, em publicações reproduzidas nas redes sociais neste domingo, apresentaram uma escolha para o Senado formada por Filipe Barros e Alexandre Curi.
A mensagem publicada foi direta: “Para o Senado pelo Paraná, nossa escolha é Filipe Barros e Alexandre Curi”.
O texto diz ainda que os dois foram escolhidos por suas “trajetórias”, pela “defesa do Paraná” e por representarem os “valores e princípios” defendidos pelos perfis.
A publicação termina com a frase: “O Paraná precisa estar bem representado em Brasília. Queremos mais Paraná e menos Brasília. A mudança do Brasil começa pelo Paraná.”
Ou seja, no mesmo campo político que Moro tenta apresentar como unido, aparece uma dobrada eleitoral entre Filipe Barros e Alexandre Curi.
É aí que surge o chamado “chifre” político em Deltan: enquanto a live oficial pede voto casado em Filipe e Deltan, uma parte da comunicação da direita apresenta Filipe e Curi como dupla para o Senado.
A expressão é política, não uma acusação de acordo formal. Não há, nas peças apresentadas ao Blog do Esmael, prova de que Filipe Barros tenha formalizado uma aliança eleitoral com Curi. O que existe é uma comunicação pública nas redes sociais que coloca os dois lado a lado e contrasta com a mensagem da live de Moro, Filipe e Deltan.
O adversário que Moro atacou na live
A contradição ganha peso porque Alexandre Curi foi citado nominalmente durante a transmissão.
Moro perguntou a Deltan se Curi havia feito, nos quatro anos anteriores, críticas ao PT, ao governo Lula ou a medidas que o grupo considera ataques à direita.
Deltan respondeu que não havia visto manifestações de Curi sobre temas como a prisão de Jair Bolsonaro, processos contra integrantes da direita ou a cassação de seu próprio mandato.
Na sequência, Deltan classificou Curi dentro do que chamou de “sistema”.
Moro também colocou Curi no campo adversário ao defender que a eleição para o Senado deveria escolher apenas nomes com posição claramente oposicionista a Lula.
O nome de Curi reapareceu ainda em outra comparação feita por Moro. O senador associou o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná ao Centrão e disse que o eleitor deveria distinguir a direita do que chamou de “velha política”.
A estratégia, portanto, foi clara: Moro, Filipe e Deltan de um lado; Curi e os demais adversários do outro.
Só que as redes sociais produziram uma terceira imagem: Filipe ao lado de Curi.
Além disso, na live, Filipe não confrontou Curi.
A disputa pelas duas cadeiras
A razão para esse embaralhamento é objetiva: o Paraná elegerá dois senadores em 2026 e a disputa reúne candidatos competitivos de diferentes grupos políticos.
Levantamento da Paraná Pesquisas, realizado em junho, apontou uma disputa apertada entre Deltan, Filipe, Curi e Gleisi em um dos cenários estimulados.
A matemática eleitoral explica parte do fenômeno: cada eleitor votará em dois candidatos para o Senado. Em uma disputa desse tipo, candidaturas podem estimular o chamado voto combinado, no qual dois nomes tentam ocupar simultaneamente os dois votos do eleitor.
É justamente aí que a unidade proclamada por Moro enfrenta seu teste mais difícil.
Na live, o discurso foi de voto casado entre Filipe e Deltan.
Nas redes sociais de direita citadas nesta reportagem, apareceu outra combinação: Filipe e Curi.
A direita unida até onde?
A transmissão de Moro, Filipe e Deltan tentou transformar a chapa ao Senado em uma espécie de bloco político.
Moro chegou a dizer que os três representam “os mesmos princípios e valores” e que o grupo seria o “melhor time” para oferecer ao eleitor paranaense.
Deltan também encerrou sua participação convocando os eleitores a privilegiar os números 300 e 22.
O problema para essa narrativa é que a eleição não é decidida apenas pelas declarações dos candidatos.
Ela também é disputada pelos cabos eleitorais, perfis políticos, lideranças locais e estruturas digitais que tentam orientar o segundo voto.
E a postagem de Filipe Barros com Alexandre Curi mostra justamente que a chamada “direita unida” pode ser menos monolítica do que a fotografia da live sugere.
Não se trata, por enquanto, de afirmar que Filipe abandonou Deltan ou que exista um acordo formal com Curi. As evidências apresentadas mostram algo mais simples e politicamente relevante: há uma comunicação pública nas redes sociais que associa Filipe a Curi, ao mesmo tempo em que a chapa oficial de Moro tenta vender Filipe e Deltan como uma dupla inseparável.
A eleição para o Senado tem duas vagas. E, no Paraná, cada uma delas está sendo disputada também no terreno do segundo voto.
A guerra eleitoral começou.
E o primeiro conflito dentro da própria direita apareceu antes mesmo de a tinta dos santinhos secar.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




