Dino “racha” a frente ampla com Maia sobre “ausência” de Bolsonaro

Se o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), acha que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é “importante” para o combate da Covid-19 no País, o mesmo não pensa o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).

Maia disse nesta terça-feira (14) em entrevista à Rádio Metrópole, de Salvador (BA), que iniciar um processo de impeachment do presidente Jair Bolsonaro neste momento aprofundaria ainda mais a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus.

O presidente da Câmara desprezou, no entanto, que Bolsonaro é negacionista e tem atrapalhado como nunca uma efetiva política sanitária para o eficaz enfrentamento do coronavírus. Basta Maia perguntar isso aos médicos, aos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Tech.

Pois bem, Dino diverge publicamente de Maia e abriu o primeiro “racha” na frente ampla, que ainda reúne o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o apresentador Luciano Huck (Globo).

Para o governador do Maranhão, a “ausência de Bolsonaro” –que está isolado devido a infecção pela Covid-19– é positiva para o país. A declaração foi dada à CNN Brasil nesta segunda-feira (13).

“Eu acho que nos últimos dias, as condições institucionais do país melhoraram. Ou seja, temos uma situação em que a ausência do presidente da República é bem-vinda, o que vai em negação quase conceitual da noção de presidencialista. Quanto mais ausente ele está, melhor para o país. Mas não acredito que isso se perenize, uma vez que eu conheço o Bolsonaro, e o estilo dele é muito singular, eu diria”, afirmou Flávio Dino.

O governador maranhense ainda acrescentou que a postura de Bolsonaro varia de acordo com o noticiário das ações judiciais que têm como alvos pessoas próximas ao presidente.

“Temos problemas que o cercam, e cercam seus amigos, familiares, e ele deseja estancar decisões judiciais, temos agora esta decisão judicial sobre o Queiroz e sua esposa. A atitude pessoal dele depende muito dessas ações. Como eu não acredito que haverá uma operação ‘pizza’, uma operação ‘abafa’, creio que muito em breve teremos uma tensão institucional derivada do fato de o presidente não aceitar controles institucionais”, avaliou.

Flávio Dino também afirmou à CNN Brasil que as recentes reações de militares a críticas por causa da atuação em setores políticos demonstram um cenário difícil para o país.

“Nós temos visto isso com o tema dos militares, eles reagem mal a uma crítica, como se eles fossem intocáveis. Qual institucional humana é intocável? A não ser que eles se vinculassem estritamente àquilo que está na Constituição, ou seja, cuidar da defesa externa do país. No momento em que eles querem exercer funções políticas, têm que se submeter a uma discussão política inclusive para ser criticados. Se eles não quiserem ser criticados, não assumam função pública. Então, como eles reagem mal até a uma crítica, eu fico pouco esperançoso que esse amainar do ambiente se estenda”, discorreu o governador do Maranhão.

Além de Maia, FHC também é contrário ao impeachment de Jair Bolsonaro.

Flávio Dino, fuja disso [da frente ampla da centro-direita]. Biroliro [Jair Bolsonaro] foi propor o mesmo para a ‘ema’, ontem, e levou uma bicada daquela ave comunista.

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Em nota, Gilmar Mendes mantém crítica ao uso de militares na Saúde

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgou uma nota sobre sua declaração de que o Exército se associou a um “genocídio” na gestão da pandemia do novo coronavírus.

Na nota, Gilmar diz que respeita às Forças Armadas, mas discorda que os militares formulem e executem a política de saúde no País.

“Estamos vivendo uma crise aguda no número de mortes pela COVID-19, que já somam mais de 72 mil. Em um contexto como esse, a substituição de técnicos por militares nos postos-chave do Ministério da Saúde deixa de ser um apelo à excepcionalidade e extrapola a missão institucional das Forças Armadas”, diz um trecho da nota do ministro.

Leia a íntegra da nota:

“Ao tempo em que reafirmo o respeito às Forças Armadas brasileiras, conclamo que se faça uma interpretação cautelosa do momento atual. Vivemos um ponto de inflexão na nossa história republicana em que, além do espírito de solidariedade, devemos nos cercar de um juízo crítico sobre o papel atribuído às instituições de Estado no enfrentamento da maior crise sanitária e social do nosso tempo.

Em manifestação recente, destaquei que as Forças Armadas estão, ainda que involuntariamente, sendo chamadas a cumprir missão avessa ao seu importante papel enquanto instituição permanente de Estado.

Nenhum analista atento da situação atual do Brasil teria como deixar de se preocupar com o rumo das nossas políticas públicas de saúde. Estamos vivendo uma crise aguda no número de mortes pela COVID-19, que já somam mais de 72 mil. Em um contexto como esse, a substituição de técnicos por militares nos postos-chave do Ministério da Saúde deixa de ser um apelo à excepcionalidade e extrapola a missão institucional das Forças Armadas.

Reforço, mais uma vez, que não atingi a honra do Exército, da Marinha ou da Aeronáutica. Aliás, as duas últimas nem sequer foram por mim mencionadas. Apenas refutei e novamente refuto a decisão de se recrutarem militares para a formulação e execução de uma política de saúde que não tem se mostrado eficaz para evitar a morte de milhares de brasileiros.”