Le Monde conta como o Brasil “embranqueceu” suas personalidades negras, como Machado de Assis

Na esteira dos debates lançados recentemente sobre o racismo no mundo, o jornal francês Le Monde se interessou mais uma vez pela situação do Brasil. Na edição publicada nesta quinta-feira (25), o vespertino conta a história do escritor Machado de Assis. O correspondente no Rio de Janeiro relata como o país “embranqueceu” o fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, assim como várias outras personalidades negras.

Em um texto intitulado “A redescoberta no Brasil das grandes personalidades negras ‘embranquecidas’”, o correspondente Bruno Meyerfeld conta como todas as referências à cor da pele de Joaquim Machado de Assis, “monumento nacional da literatura”, foram, durante muito tempo, apagadas. O jornalista explica que até hoje muitos nem sabem que o maior escritor do país era negro.

O correspondente explica a razão dessa ignorância, ressaltando que “na foto oficial do autor, usada para ilustrar a maior parte de seus livros, Machado de Assis aparece com uma pele tão clara quanto a sua camisa”. Além disso, na imagem os cabelos parecem ser lisos e os traços são escondidos pela barba, continua o texto. Le Monde lembra ainda que estátuas do autor de “Dom Casmurro” foram feitas quando ele ainda era vivo. E, mesmo assim, os escultores preferiram usar o mármore branco ao basalto preto.

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“Na verdade, o tratamento dado a Machado de Assis não é fruto do acaso. O escritor, como várias outras personalidades negras ou mestiças, viu seus retratos ‘embraquecidos’ de propósito – resultado de um racismo odioso em prática no início do século 20”, pontua o correspondente. Ele lembra que o Brasil ainda sofria com a herança da escravidão, abolida em 1888, e que, em seguida, “os governantes, que sonhavam com um país de ‘sangue lavado’, implementaram uma política oficial de embraquecimento da população, ‘importando’ 4 milhões de imigrantes da Europa até 1929”.

Até presidente teve imagem alterada
No caso de Machado de Assis, a imagem desejada pelas autoridades persistiu durante décadas, a ponto de seu atestado de óbito trazer a descrição “cor branca”. “Um século mais tarde, em 2011, um ator branco foi escolhido para interpretar o escritor em uma publicidade”, relata o jornal francês, insistindo que o autor está longe de ser o único a receber esse tratamento no país. “Um ‘branqueamento’ fotográfico foi aplicado em Nilo Peçanha, presidente do Brasil entre 1909 e 1910, mas também no padre e compositor José Mauricio (1767-1839), ou ainda no escritor e jornalista Lima Barreto (1881-1922), todos mestiços e descendentes de escravos”, enumera o jornal.

Retrocesso na era Bolsonaro?
Segundo Le Monde, a situação só começou a mudar nos anos 2000. “Nessa época, a identidade negra se afirmou e grandes personalidades afrobrasileiras foram ‘desembranquecidas’: arquivos foram descobertos e fotografias do ‘verdadeiro Machado’ foram exumadas. Em 2019, a universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, publicou uma nova versão oficial do retrato do escritor, que aparece com sua verdadeira cor de pele”, relata o texto.

“Mas será que esse movimento de emancipação vai resistir à onda de Jair Bolsonaro?”, questiona Le Monde, afirmando que o Brasil vive atualmente um grande retrocesso sobre as questões raciais. Para justificar seus argumentos, o correspondente termina o texto mencionando o cartaz de uma campanha publicitária recente do governo federal, no qual aparecem, sob o slogan “Pátria Amada – Brasil”, cinco crianças, todas brancas, com cabelos lisos e de aparência europeia. “Um novo ‘embranquecimento’ fotográfico, bem distante da realidade de uma nação cada vez mais mestiça”, conclui o correspondente.

Por RFI