O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), entrou nesta sexta-feira (20) naquela zona mais perigosa de toda guerra mal explicada: a distância entre o discurso político e a máquina militar. Publicamente, ele disse que os EUA estão “muito perto” de seus objetivos e cogitam reduzir o esforço bélico. Na prática, o Pentágono desloca milhares de fuzileiros e marinheiros para o Oriente Médio, soma essa força aos cerca de 50 mil militares americanos já posicionados na região e deixa de pé cenários que incluem garantir o Estreito de Ormuz com presença no litoral iraniano ou até uma ação em Kharg, ilha vital para as exportações de petróleo do Irã. Não há decisão tomada por invasão terrestre, mas há preparação concreta para opções futuras.
É justamente aí que mora o problema político de Trump. Quando um presidente afirma que pensa em “encerrar” a guerra, mas reforça navios, tropas anfíbias e capacidade de desembarque, ele passa ao eleitor a sensação de que o plano ainda não existe por inteiro, ou de que está mudando no meio do caminho. As justificativas, os objetivos e o cronograma da guerra foram variando ao longo de março. O Reino Unido, por exemplo, já autorizou o uso de bases britânicas para ações americanas contra alvos iranianos ligados aos ataques no Estreito de Ormuz, sinal de que a escalada vai muito além de retórica de campanha ou bravata em rede social.
Nos Estados Unidos, o humor do público é francamente hostil a uma guerra maior. Pesquisa Reuters/Ipsos encerrada na quinta-feira (19) mostra que 65% dos americanos acreditam que Trump acabará ordenando uma guerra terrestre de grande escala no Irã, mas só 7% aprovam essa hipótese. No conjunto da guerra, apenas 37% aprovam o conflito e 59% desaprovam, inclusive cerca de um em cada cinco republicanos. Mais ainda, 55% rejeitam qualquer envio de tropas terrestres, seja em missão limitada ou ampla. Para um presidente que voltou à Casa Branca vendendo força, previsibilidade e prosperidade, o retrato é tóxico: sua base aceita os ataques aéreos em grande número, mas o país rejeita a ideia de atoleiro.
A impopularidade cresce porque a guerra já saiu da televisão e foi parar na bomba de gasolina. Outra pesquisa Reuters/Ipsos, divulgada nesta sexta-feira (20), aponta que 55% dos americanos já sentiram impacto financeiro com a alta dos combustíveis. O preço médio da gasolina subiu quase US$ 1 por galão desde 28 de fevereiro, data do início da ofensiva americano-israelense contra o Irã, e 87% esperam novos aumentos no próximo mês. No mesmo levantamento, a aprovação de Trump na condução do custo de vida caiu para 29%, enquanto 63% desaprovam sua atuação nesse tema. Politicamente, esse talvez seja o dado mais perigoso para a Casa Branca: não é só uma guerra impopular, é uma guerra que encarece a vida.
É aí que entra a pergunta central para novembro: os democratas conseguirão capitalizar? Podem, mas ainda não conseguiram transformar a rejeição difusa à guerra em uma narrativa única, popular e eleitoralmente eficiente. A direção do partido reagiu no terreno institucional, com pedidos de audiências públicas, críticas à falta de estratégia e resistência ao pedido de mais de US$ 200 bilhões para financiar a guerra. Só que isso, por si só, não basta. O eleitor médio pune mais facilmente o preço do posto, o supermercado e a sensação de guerra sem saída do que um debate abstrato sobre prerrogativas do Congresso.
Além disso, os democratas seguem rachados. A Associated Press mostrou que a unidade oposicionista começou a ser testada logo após os ataques, com divergências sobre a resolução de poderes de guerra e com nomes mais alinhados a Israel resistindo à linha partidária. A Reuters também identificou que a guerra já contaminou prévias democratas em estados-chave, com progressistas atacando moderados por tibieza e por vínculos com doadores do complexo de defesa e grupos pró-Israel. Traduzindo para o português claro: a guerra abre uma avenida para desgastar Trump, mas a oposição ainda trafega nessa avenida com o volante puxado por disputas internas.
A inferência mais honesta, hoje, é esta: a guerra no Irã pode virar um passivo eleitoral sério para Trump se continuar juntando três ingredientes, morte sem desfecho, gasolina cara e objetivo militar confuso. Os números já sugerem esse risco. Mas os democratas só colherão dividendos se conseguirem ligar essas pontas em linguagem de maioria, não apenas em linguagem de Washington. Em outras palavras, precisam mostrar que Trump não meteu os EUA apenas numa guerra distante, meteu o país numa guerra cara, impopular e sem plano convincente de saída.
Trump talvez ainda consiga vender força ao seu núcleo duro. O problema é que eleição de meio de mandato não se vence só com núcleo duro. Vence-se no bolso, na fadiga do eleitor e na percepção de que o governante perdeu a mão. É exatamente nesse terreno que a guerra começa a corroer a promessa trumpista de ordem e prosperidade.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




