Início / donald Trump

Guerra no Irã corrói Trump e complica aposta do PL em Flávio Bolsonaro

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, pode ter vendido cedo demais a ideia de que Donald Trump entrará na campanha brasileira de 2026 como cabo eleitoral do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em entrevista publicada pelo UOL na terça-feira (17), Valdemar disse esperar apoio do presidente americano ao projeto do clã Bolsonaro. O problema para o PL é que o cenário externo já começou a andar na direção contrária.

Em editorial publicado nesta quinta-feira (19), o The Economist resumiu o momento de Trump de forma dura: a guerra no Irã estaria deixando o presidente americano “mais fraco e mais irritado”. A revista britânica sustenta que a campanha contra Teerã reduz os “superpoderes políticos” do republicano, em vez de reforçá-los.

Não é só uma leitura editorial isolada. A Reuters também publicou nesta quinta-feira (19) que a guerra fortaleceu Benjamin Netanyahu em Israel, mas produziu o efeito inverso em Trump, ao prendê-lo num conflito sem saída clara, expor aliados do Golfo a riscos crescentes e atingir justamente a narrativa econômica que o ajudou a voltar à Casa Branca. Em outras palavras, o presidente dos EUA entrou numa guerra para projetar força e agora corre o risco de sair dela politicamente menor.

É aí que a conta de Valdemar começa a falhar. O apoio de Trump à extrema direita brasileira só teria real peso se viesse de um presidente forte, capaz de irradiar liderança, agenda e prestígio. Se o mandatário americano estiver consumido pela guerra, pelo petróleo caro e pela pressão doméstica, o selo trumpista prometido ao PL pode chegar desvalorizado, tardio ou até irrelevante para o eleitor brasileiro. Essa é a contradição que o editorial do Economist escancara ao bolsonarismo.

Não é detalhe menor o apoio quase cego da extrema direita brasileira à guerra de Donald Trump contra o Irã, conflito que já sacode o preço do petróleo no mercado internacional e empurra para cima a conta dos combustíveis no Brasil. O caso ainda reabre uma ferida que o bolsonarismo prefere esquecer: a privatização de refinarias no governo Jair Bolsonaro e a permanência de uma dependência externa no diesel, justamente num setor sensível ao dólar e às turbulências geopolíticas.

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o filho zero três, já vem tentando construir essa ponte com a extrema direita americana há algum tempo. Em março de 2025, o Blog do Esmael informou que ele se licenciou do mandato para viver nos Estados Unidos e buscar apoio internacional para Jair Bolsonaro e seu grupo político. Eduardo agradeceu publicamente, numa postagem no X, ao ultradireitista Darren Beattie, nomeado pelo governo Trump para aconselhar a política americana sobre o Brasil.

Só que a política externa de Trump não gira em torno de afinidades ideológicas permanentes com a família Bolsonaro. Em setembro de 2025, em Nova York, o republicano disse que teve “excelente química” com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após um breve encontro na Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo a imprensa internacional, Trump afirmou que Lula lhe pareceu “um homem muito simpático” e que os dois concordaram em voltar a conversar. E voltaram.

Esse dado bagunça a fantasia vendida por Valdemar. O mesmo Trump que o PL tenta apresentar como padrinho automático de Flávio já demonstrou, quando lhe convém, disposição para baixar a temperatura com Lula. O próprio Blog do Esmael registrou em fevereiro de 2026 que, após aquele encontro na ONU, a relação bilateral melhorou parcialmente, com recuo tarifário sobre alguns produtos brasileiros e suspensão de sanções contra Alexandre de Moraes no fim do ano passado.

Há outro ponto que a direita brasileira parece subestimar. O primeiro teste político pesado da guerra não será a eleição presidencial americana de 2028, mas a eleição de meio de mandato, marcada para 3 de novembro de 2026. Estarão em disputa todos os 435 assentos da Câmara e 35 das 100 cadeiras do Senado. Essa votação não tira Trump da Casa Branca, mas mede o humor do eleitor e pode amputar sua maioria no Congresso, reduzindo sua governabilidade e seu peso internacional.

Se o conflito seguir empurrando combustíveis, inflação e instabilidade, a guerra pode cobrar sua fatura nas urnas americanas antes mesmo de qualquer gesto em favor do bolsonarismo no Brasil. E, sem força em casa, Trump terá menos capital para brincar de tutor eleitoral em Brasília ou no Paraná. O projeto de Valdemar, portanto, depende de um Trump que talvez já esteja encolhendo diante do próprio caos que ajudou a criar.

No fim das contas, a direita brasileira pode descobrir que apostou num atalho internacional para resolver um problema doméstico. E atalhos assim costumam terminar em beco. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Leia também no Blog do Esmael: Big Tech tenta emplacar IA e segurança infantil no Congresso dos EUA; Trump demite Conselho de Ciência e atinge a NSF; Lula defende parceria com Europa e critica guerra no Irã