O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi a Betim, nesta sexta-feira (20), para fazer da Petrobras mais do que uma estatal de energia. Na Refinaria Gabriel Passos (Regap), o presidente acompanhou o anúncio de R$ 9 bilhões em investimentos da companhia em Minas Gerais na próxima década, com previsão de 36 mil empregos, e usou o evento para recolocar combustíveis, refino e soberania energética no centro do discurso político.
O movimento não foi apenas industrial. Lula amarrou no mesmo palco a retomada de investimentos da Petrobras, a inauguração da primeira usina fotovoltaica da estatal em uma refinaria e a crise internacional do petróleo, pressionado pela guerra no Oriente Médio. O recado foi claro: o governo quer vender a imagem de um Estado capaz de investir, proteger o mercado interno e entrar em 2026 com um ativo que fala diretamente ao bolso do eleitor.
Na parte concreta da agenda, a Regap passou a operar a primeira usina solar da Petrobras em refinaria. Segundo o Planalto, foram investidos R$ 63 milhões numa estrutura com cerca de 20 mil placas solares, espalhadas por 24 hectares, com capacidade de geração de 13,3 mil kW. A expectativa oficial é cortar em 20% o gasto de energia da unidade, num gesto que tenta aproximar o discurso da transição energética da operação real do parque de refino.
O pacote anunciado para Minas também tem peso na produção. No atual Plano de Negócios da Petrobras, entre 2026 e 2030, a estatal prevê R$ 3,8 bilhões apenas em ações ligadas à Regap, com geração estimada de 8 mil postos de trabalho. No horizonte mais amplo, o investimento total de R$ 9 bilhões no estado serve para Lula dizer que a Petrobras voltou a expandir presença onde o bolsonarismo e o mercado defenderam encolhimento e venda de ativos.
Foi nesse ponto que o discurso saiu da técnica e entrou de vez na política. Em Betim, Lula defendeu que o Brasil construa um estoque regulador de petróleo para não ficar refém de guerras, greves e especulação internacional. Ao levantar a hipótese de um fechamento prolongado do estreito de Ormuz, o presidente ligou o noticiário da guerra ao risco imediato sobre diesel, gasolina e inflação, tentando mostrar que a crise externa exige mais presença do Estado, não menos.
Lula também voltou a atacar o ciclo de privatizações no setor e afirmou que a Petrobras buscará recomprar a refinaria de Mataripe, na Bahia, vendida em 2021 no governo Jair Bolsonaro (PL). O gesto é simbólico e político. Simbólico porque tenta reverter uma das vitrines do desmonte do sistema de refino. Político porque reforça a narrativa de que o governo quer recuperar instrumentos para influenciar oferta e preço de combustíveis em momentos de turbulência.
Minas entra nessa história por uma razão óbvia: continua sendo um campo estratégico para qualquer projeto presidencial competitivo. Pesquisa Real Time Big Data divulgada em 13 de março mostrou que Lula tem 35% das intenções de voto em um cenário estimulado no estado, contra 31% de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), num empate técnico dentro da margem de erro. Ao mesmo tempo, a avaliação do governo ainda enfrenta desgaste local: 55% desaprovam a gestão federal em Minas, enquanto 42% aprovam.
É por isso que a agenda de Betim vale mais do que a soma de placas solares, barris e cifras bilionárias. Lula foi a Minas para defender a Petrobras como instrumento de governo, reagir politicamente ao choque do petróleo e reabrir palanque num estado decisivo para 2026. Quando energia, emprego e combustível entram no mesmo discurso, o Planalto deixa de falar apenas de gestão e passa a falar, também, de eleição. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.



