A nova escalada no Oriente Médio levou o Brent a tocar US$ 119 por barril, antes de recuar para a faixa de US$ 108 a US$ 110 nesta sexta-feira (20), e já espalha efeitos sobre diesel, logística, comida e juros no Brasil. O choque saiu do mapa da guerra e entrou no bolso do consumidor.
O salto do petróleo não veio do nada. A crise avançou sobre ativos centrais de energia, com ataque israelense ao campo de gás South Pars, retaliações iranianas sobre infraestrutura regional e nova tensão em torno do Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de um quinto do fluxo global de petróleo e gás natural liquefeito. Nesta sexta-feira (20), a TV estatal iraniana ainda informou a morte de Ali Mohammad Naini, porta-voz da Guarda Revolucionária, em bombardeios atribuídos a Estados Unidos e Israel.
O mercado entendeu o recado rapidamente. O barril recuou da máxima, mas o susto permaneceu. A Reuters mostrou que a guerra já contaminou preços de combustíveis, elevou o custo do frete internacional, reabriu o fantasma de inflação global e acendeu alerta também sobre fertilizantes e alimentos nos países em desenvolvimento. Em português claro, quando energia sobe desse jeito, a conta não para na refinaria, ela chega ao caminhão, ao supermercado e à mesa.
No Brasil, o problema ganha escala porque a economia roda sobre rodas. Cerca de 25% do diesel consumido no país é importado, justamente o combustível que move a maior parte da carga nacional. No dia 14 de março, a Petrobras já havia reajustado o diesel A em R$ 0,38 por litro, o que equivale a R$ 0,32 por litro no diesel B vendido nos postos. Mesmo assim, a estatal anunciou refinarias operando em nível elevadíssimo, com seis unidades acima da capacidade de projeto, numa tentativa de segurar a pressão sobre o abastecimento.
O Planalto vê nesse ambiente a expansão da especulação, sobretudo na distribuição e na revenda de combustíveis, depois que o governo Bolsonaro (PL) privatizou a BR Distribuidora e aprofundou a exposição do mercado brasileiro ao dólar e ao petróleo internacional. Por isso o governo Lula (PT) decidiu endurecer a fiscalização e a punição de abusos nos preços nas bombas.
Por isso, Lula corre para amortecer o repique. A equipe econômica propôs aos estados zerar o ICMS do diesel importado, com compensação federal parcial até maio, enquanto a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) determinou que a Petrobras entregue volumes que haviam ficado travados após o cancelamento de leilões. O movimento mostra que Brasília já trata a guerra como problema doméstico de abastecimento, preço e inflação.
A pressão chega num momento em que a inflação brasileira vinha dando algum respiro, mas ainda sem folga. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,70% em fevereiro e acumula 3,81% em 12 meses. Só o grupo Transportes avançou 0,74% no mês. Antes mesmo desta rodada mais aguda da guerra, o Ministério da Fazenda já havia revisto sua projeção de inflação de 2026 de 3,6% para 3,7% por causa do choque do petróleo. Em cenários simulados pela própria pasta, um Brent médio de US$ 100 ao longo do ano acrescentaria até 0,58 ponto percentual à inflação.
Foi sob esse pano de fundo que o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a Selic de 15% para 14,75% na quarta-feira (18). O corte veio, mas veio miúdo. A decisão do Banco Central foi de apenas 0,25 ponto, abaixo da aposta dominante de 0,50 ponto no mercado, justamente porque o choque do petróleo recolocou incerteza no radar inflacionário. Em outras palavras, os juros começaram a cair, mas a guerra tratou de puxar o freio de mão da autoridade monetária.
Mas isso não convenceu a ministra Gleisi Hoffmann, responsável pela articulação política do governo Lula. Segundo ela, redução de apenas 0,25 na taxa Selic, sem sinalização clara de novos cortes, é decepcionante.
“O país já pagou um preço alto demais pela política de juros contracionista, que está inibindo o investimento e inflando a dívida pública e das famílias. As incertezas provocadas pela guerra não podem sustentar o prolongamento do sufoco dos juros e dos ganhos especulativos”, disse a ministra das Relações Institucionais, alter ego do presidente Lula na economia.
O dado político e econômico da manhã é este: a guerra deixou de ser um enredo distante para virar variável do preço do diesel, do custo do frete, da inflação dos alimentos e do ritmo de queda dos juros no Brasil. O barril pode até ter saído do pico, mas o estrago de expectativa já está contratado. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




