Teerã confirma mortes de Larijani e Soleimani na guerra

Israel acertou o coração do aparato de poder iraniano na noite desta terça-feira (17). A mídia estatal de Teerã confirmou as mortes de Ali Larijani, chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, e do general Gholamreza Soleimani, comandante da força paramilitar Basij, em ataques atribuídos por Israel à sua ofensiva contra a cúpula da República Islâmica.

A confirmação transforma em fato consumado aquilo que, horas antes, ainda era tratado como alegação israelense. No caso de Larijani, o próprio Conselho Supremo de Segurança Nacional reconheceu o assassinato e o tratou como “martírio”. Já a Guarda Revolucionária Islâmica, em comunicado reproduzido pela agência Tasnim, afirmou que o sangue do dirigente será “fonte de honra, força e despertar nacional”, numa linguagem que mistura luto oficial, mobilização política e promessa de vingança.

A morte de Larijani tem peso muito superior ao de uma baixa simbólica. Aos 67 anos, ele era um dos nomes mais experientes e influentes do establishment iraniano, com passagem pela Guarda Revolucionária, pelo Ministério da Cultura, pela direção da televisão estatal, pela chefia do Parlamento entre 2008 e 2020 e pela condução das negociações nucleares. Nos últimos meses, havia voltado ao centro do poder como secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, posição-chave na coordenação da resposta iraniana à guerra.

Larijani também ocupava um lugar raro no regime: era visto ao mesmo tempo como homem do sistema e como uma ponte entre os setores militares e a ala política mais pragmática. Analistas ouvidos por veículos internacionais avaliam que sua eliminação fecha uma das poucas janelas internas para uma saída negociada do conflito e tende a fortalecer os segmentos mais duros ligados à Guarda Revolucionária.

É justamente aí que a notícia muda de patamar. Israel não matou apenas mais um dirigente iraniano. Ao atingir Larijani, removeu uma peça capaz de costurar decisões estratégicas e, em tese, conversar com o Ocidente num eventual cessar-fogo. O efeito provável é o oposto da distensão: mais militarização do regime, menos espaço para acomodação diplomática e maior risco de prolongamento da guerra. Essa leitura aparece tanto em análises publicadas nesta terça-feira quanto no próprio tom adotado pelo IRGC, que já fala abertamente em “sede de sangue”.

General Gholamreza Soleimani (foto de arquivo)

No caso de Gholamreza Soleimani, o impacto é diferente, mas também profundo. Ele comandava desde 2019 a Basij, milícia paramilitar ligada à Guarda Revolucionária e central na repressão a dissidências internas. A confirmação de sua morte pela mídia estatal iraniana e pelo IRGC representa novo golpe sobre a cadeia de comando da segurança doméstica do regime.

A Basij é uma engrenagem decisiva para o controle social no Irã. Com presença capilar em bairros, universidades e locais de trabalho, a força atua como braço auxiliar da repressão e foi acusada por governos ocidentais e por organizações internacionais de participar da supressão violenta de protestos. A morte de seu comandante, portanto, atinge não apenas a estrutura militar do país, mas o próprio mecanismo de vigilância e contenção interna que sustenta a República Islâmica em tempos de crise.

O governo iraniano tenta converter essas perdas em combustível político. Ao chamar Larijani de “figura ilustre” e Soleimani de mártir da resistência, o regime procura transformar o trauma em coesão nacional. Só que a conta não fecha com tanta facilidade. Quando um país perde, em plena guerra, um operador pragmático do calibre de Larijani e, no mesmo movimento, o chefe de uma de suas principais forças de controle interno, o recado que fica é de vulnerabilidade no topo do poder.

A ofensiva ainda amplia a pressão internacional sobre o conflito. O barril do Brent fechou esta terça-feira a US$ 103,42, alta de 3,2% no dia, num mercado que lê cada novo ataque como risco direto à navegação e ao abastecimento global de energia. Não é mais uma guerra distante. É uma guerra que já pressiona inflação, combustíveis e juros no resto do mundo.

O dado político mais sensível, no entanto, está dentro de Teerã. A morte de Larijani pode empurrar o regime para uma lógica ainda mais fechada, dominada quase sem mediação pelos setores militares e ideológicos. Em vez de abrir caminho para a queda imediata do sistema, como sonham Benjamin Netanyahu e seus aliados, a decapitação sucessiva da cúpula iraniana pode endurecer o comando remanescente e radicalizar a resposta.

Teerã confirma, portanto, duas mortes que alteram o tabuleiro da guerra. Com Larijani fora de cena, some uma peça de negociação. Com Soleimani morto, o regime perde um comandante central da repressão. O resultado imediato é um Irã mais ferido, mais instável e, ao que tudo indica, mais inclinado ao confronto do que ao recuo. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *