O governador Ratinho Junior (PSD) levou o deputado federal licenciado Fernando Giacobo (PSD-PR) para a Secretaria das Cidades e transformou uma nomeação administrativa em movimento direto na sucessão do Paraná. Giacobo deixou o PL após a sigla bancar o senador Sergio Moro para o governo estadual.
A nomeação foi assinada na semana passada e Giacobo se licenciou do mandato a partir desta terça-feira (5) para assumir a Secretaria de Estado das Cidades.
A pasta importa porque fala com prefeitos, vereadores, obras e convênios. A Secretaria das Cidades é considerada uma das áreas mais estratégicas da gestão Ratinho, responsável pela interlocução com municípios para investimentos.
A Secretaria das Cidades também aparece no histórico recente do Palácio Iguaçu como vitrine para quem mira voos eleitorais. Guto Silva (PSD), antes cotado para disputar o governo, deixou a pasta para ampliar agenda no interior, mas não decolou e acabou sendo substituido pelo deptuado federal Sandro Alex (PSD), ex-secretário da Infraestrutura e Logística.
O cargo já foi lido na política paranaense como posto de visibilidade. A secretaria coloca o ocupante em contato direto com prefeitos e vereadores e com obras estruturantes nos municípios.
Ratinho conhece esse caminho. Em 2013, o então deputado federal Massa Junior foi nomeado secretário de Desenvolvimento Urbano pelo então governador Beto Richa (PSDB), pasta que antecedeu a atual Secretaria das Cidades.
Roberto Requião (PDT) também passou pela área antes de chegar ao governo. Requião foi secretário de Desenvolvimento Urbano entre 1989 e 1990, depois prefeito de Curitiba e antes de assumir o governo estadual em 1991.
Eduardo Pimentel (PSD), atual prefeito de Curitiba, também ocupou a Secretaria das Cidades no governo Ratinho. Ele foi nomeado em janeiro de 2023, quando Pimentel ainda era vice-prefeito.
O caso Rafael Greca ajuda a medir o peso político da pasta. O Blog do Esmael já mostrou que Greca relatou promessa de assumir a Secretaria das Cidades em 2025, mas Ratinho nomeou Guto Silva, movimento lido por aliados como parte da tentativa de projetar Guto na sucessão estadual.
A diferença, agora, é que Giacobo chega depois de romper com o PL no ponto mais sensível para a direita paranaense. O ex-presidente estadual do PL não apoiaria Moro e permaneceria alinhado a Ratinho Junior.
Giacobo também subiu o tom contra Moro. Em abril, ele cobrou publicamente que o senador não tratasse o Paraná como “segunda opção”, em referência às movimentações anteriores de Moro fora do estado. Em 2022, o ex-juiz teve o domicílio eleitoral indeferido pela Justiça Eleitoral de São Paulo.
A crise não começou na posse de Giacobo. Em março, prefeitos do PL articulavam saída em massa após a filiação de Moro e sua indicação para disputar o governo do Paraná.
O Blog do Esmael já havia registrado que a ida de Moro ao PL abriu uma crise na sucessão de Ratinho. Naquela apuração, a conversa com a cúpula nacional do PL aparecia como movimento capaz de reorganizar a direita paranaense em torno do senador.
A entrada de Giacobo na Secretaria das Cidades, portanto, não é só troca de cadeira. É Ratinho recolhendo um dissidente do PL, entregando a ele uma pasta de contato municipal e tentando conter, por dentro da máquina estadual, o avanço de Moro sobre prefeitos e lideranças da direita.
O orçamento estadual de 2026 também ajuda a entender a disputa. O governo sancionou orçamento de R$ 81,6 bilhões, com cerca de R$ 4,2 bilhões voltados a obras e transferências para investimentos nos municípios, segundo a Secretaria da Fazenda.
Esse dinheiro não pertence a um secretário. Mas a política municipal vive de agenda, convênio, obra anunciada e relação direta com prefeito. É nesse terreno que a Secretaria das Cidades pesa.
O movimento deixa uma pergunta incômoda para Moro: quantos aliados do antigo PL estadual seguirão no palanque do senador se a estrutura de Ratinho oferecer espaço, agenda e estrada até os municípios?
A disputa pelo governo do Paraná entrou na fase em que partido, secretaria e prefeitura viram moeda de guerra. Ratinho ainda tem a caneta; Moro tenta ocupar o campo da oposição de direita; Giacobo encarnou o racha que o PL abriu ao apostar no ex-juiz da Lava Jato.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




