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Quem venceu o debate da Globo, Lula ou Flávio Bolsonaro?

A pergunta que o eleitor acompanhou durante toda a noite não tem resposta simples. O debate da TV Globo entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), na noite desta sexta-feira, 23 de outubro, terminou sem vencedor claro: Lula impôs a agenda dos direitos sociais e da memória do governo Jair Bolsonaro; Flávio Bolsonaro impôs a agenda do endividamento, do custo de vida e da segurança. Cada um venceu o terreno que escolheu, e nenhum conseguiu desmontar o adversário. A votação é domingo (25).

No primeiro bloco, Lula levou a melhor. Flávio Bolsonaro titubeou na resposta sobre infraestrutura, sem apresentar custo ou prazo para as ferrovias que prometeu, e Lula o confrontou com o salário mínimo, arrancando duas vezes o compromisso de reajuste acima da inflação. O trocadilho de Flávio Bolsonaro com a deficiência física de Lula, porém, criou o episódio que dominaria a noite e tirou o debate das propostas.

No segundo bloco, Lula ganhou o confronto moral. Elevou o tom, chamou o senador de “miliciano” e exigiu desculpas pelo trocadilho; Flávio Bolsonaro recuou e pediu perdão. O gesto do senador foi hábil: reconheceu o erro sem entregar o resto do programa e devolveu cobranças sobre moradores de rua, Bolsa Família e endividados. A palavra “miliciano”, porém, é o tipo de ataque que fixa imagem e pode cobrar preço no eleitorado que rejeita radicalização.

No terceiro bloco, houve empate. Flávio Bolsonaro encontrou seu melhor momento ao abrir o tema do endividamento com “prometeu picanha e entregou abóbora” e ao levar a discussão para o bolso do eleitor. Lula respondeu com o Desenrola e com o caso Ana Clara, que produziu a cena mais grave da noite: a mãe da menina de 5 anos no estúdio e a cobrança sobre o julgamento do policial.

No quarto bloco, os dois se feriram. Lula cobrou explicações sobre a ilha de R$ 10 milhões de Richarlison; Flávio Bolsonaro negou envolvimento e devolveu com o whisky de R$ 500 mil e o Banco Master. A troca terminou em acusações mútuas de corrupção e de patrimônio oculto, sem que nenhum apresentasse prova nova no palco.

O formato também pesou. O primeiro bloco, com temas regionais e de infraestrutura, favoreceu Lula, que tinha obras para listar. O quarto, de tema livre, virou ringue: sem mediação temática, os candidatos foram para o ataque pessoal e para o confronto sobre processos e patrimônio.

O balanço depende do eleitor. Para quem já votava em Lula, o presidente venceu ao lembrar o passado do governo Bolsonaro e ao arrancar compromissos sociais. Para quem já votava em Flávio Bolsonaro, o senador venceu ao transformar o debate em plebiscito sobre o custo de vida e ao não recuar diante das acusações.

A eleição, no entanto, será decidida por quem ainda não decidiu, e esse eleitor viu pouca proposta e muita acusação. Nos quatro blocos, os candidatos repetiram números sem apresentar a conta, trocaram ofensas pessoais e dedicaram boa parte do tempo a discutir o passado um do outro. Flávio Bolsonaro pediu cinco direitos de resposta no último bloco; todos foram negados.

O ponto de partida era de empate. Pesquisa Datafolha divulgada em 22 de outubro mostrava 50% a 50% nos votos válidos. Se houve um vencedor na noite, ele não apareceu no palco. Apareceu, talvez, na capacidade de cada campanha de transformar o confronto em voto no domingo.